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sábado, 27 de maio de 2017

Um brinde à música de Mendoza



Créditos: Joaquín Brito / Divulgação

Uma das cidades que quero conhecer é Mendoza, na Argentina. Não, esse não é um post sobre turismo, mas se alguém quiser dicas, eu posso ajudar, pois já até planejei a viagem, mas como um típico jornalista, não sou muito bom com números. E errei nas contas, portanto meus planos de conhecer essa aprazível cidade aos pés dos Andes, foi adiada para no sé cuando.

E naquelas ironias que as redes sociais me proporcionam, acabei voltando, de certa forma para cidade e agora tenho mais razões para conhecê-la: a música.  Estava eu, navegando no Spotify, ouvindo os “artistas relacionados” de outros músicos que gosto. Essa é uma viagem sem fim, sabemos. E logo apareceu para mim uma banda chamada Perras On The Beach. Cidade? Mendoza. Só um trabalho lançado, que se chama Chupalapija. Sim, a tradução é essa que você imagina. Bom ressaltar que nossos hermanos, felizmente, têm muito menos pudor/recalque para dizer essas palavras, carajo.

Entrei na página do Facebook deles, vi que o grupo é formado por garotos entre 16 e 22 anos e que gravaram e produziram o primeiro trabalho, em apenas três dias. Ouvindo o disco, percebi realmente um lado tosco, mais no sentido de ser rústico, de ter um grande potencial, mas que ainda não foi bem desenvolvido, mas que há boas ideias ali. 

Mas não, meu texto não é sobre eles. É porque na página do Facebook, eles postaram um vídeo no Youtube do novo álbum do Usted Señalemelo. Vi que são dois discos. Comecei a escutar o primeiro disco ainda nesta semana e achei incrível. De onde eles são? Sim, Mendoza.

No primeiro trabalho, o grupo ora se apresenta com um indie rock bem jovem e ensolarado, tipo Phoenix e Foster the People (porém, melhorado) e em algumas outras ocasiões flertam com um pop-rock mais adulto, trazendo boas referências locais, como Gustavo Cerati. Nas primeiras audições, já ia selecionando as músicas para as minhas listas do Spotify, tamanha foi minha surpresa. 

Li matérias que diziam que essas músicas eles tocavam desde adolescência, portanto o primeiro registro Usted Señalemelo, apesar de lançado em 2015, tinha uma certa vibe que remetia a 2011 e 2012, uma celebração da adolescência. Um bom trabalho, mas basta escutar uma vez pra gostar de cara ou não. Simples, direto e bem feito. Vá escutando Plastilina, Cristales, Alfredo, Outra Vez, Girando a Través... Você gosta, ou desgosta de vez. A ótima Textos e a balada Água Marfil  já mostravam um amadurecimento, entregando o que estava por vir. Porque a coisa cambió. E muito.

A discrepância para II, lançado há pouco, é significativa. A banda dá alguns passos adiante e faz o début ser apenas uma boa estreia juvenil. O novo é mais complexo, instigante e bem menos comercial. A banda envelheceu 10 anos em 2. Esquece Phoenix, videoclipes ensolarados em piscinas curtindo el verano. Muitas texturas, orquestrações, flertes eletrônicos, alguma sonoridade dos anos 80, levam o grupo para outra direção e surpreende o ouvinte por tamanho ecletismo. Big Bang é excelente e você se perde na enxurrada de influências. Aguetas é climática e ao mesmo tempo, dançante.  Laser 420 é psicodélica. F.T., majestosa, um flerte com Verve e Manic Street Preachers. O trabalho se encerra com as barulhentas e boas Tu Salto e Puedo Morir, Puedo Caer.

Agora já sei: quando for a Mendoza, beberei os vinhos, subirei os Andes e também, tentarei ver um show dos caras por lá. Uma grande surpresa, de uma banda ainda promissora. Vale muito a pena conhecer.

Abaixo, confiram Plastilina, música do primeiro álbum deles:




quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Melhores de 2016


Créditos: Kerrang.com / Reprodução

Uma tradição que começou há 15 anos não deveria ser quebrada. A menos por um HD que pifa. Por isso, não teve os melhores de 2015. Mas mesmo o novo computador estando bem (até o momento) e o autor destas linhas, ironicamente, estando um bagaço, eu não me furto da obrigação, apesar de o tempo para ouvir música em 2016 ter sido extremamente reduzido. E minha paciência, ser cada vez menor. Vícios da idade. Lamentem. Foram só 62 trabalhos escutados e alguns, sem tanto tempo, culpa de querer manter os blogs perante dois empregos, a cerveja ocasional recorrente, os jogos de tênis e o ócio que é preciso cultivar. Fora as filas nos bancos, nas padarias e supermercados, que ninguém contabiliza, mas é uma soma considerável. Enfim, chega de choro, apesar dos pesares, não desisto, apenas fraquejo, pois pestanejar também é esporte.

Leia também:

Melhores de 2014

Melhores de 2013

(entre 2012 e 2008 hospedei o site em um domínio que foi descontinuado... = / )

Melhores de 2007

Melhores de 2006

Melhores de 2005

Melhores de 2004

Melhores de 2003

Melhores de 2002

Começo sempre com a foto de quem beliscou o top 20 e ficou só na vontade. Falo do Biffy Clyro, que há mais de uma década resolveu deixar de fazer música torta e instigante e hoje virou uma boa banda convencional de rock, assim como trocentas outras. Mas estão ganhando lá seus milhões e quem sou eu pra julgá-los? Ellipsis vale a audição, tem 6 músicas boas ali.

E o top 20 prossegue assim:

20° Ciro y Los Persas - Naranja Persa

Terceiro e pior trabalho do grupo argentino liderado por Andrés Ciro Martínez (que liderava a banda Los Piojos, na qual os dois últimos trabalhos são muito bons), decepcionou, não por ser ruim, mas por Espejos (2010) e 27 (2012) serem claramente melhores.

19º Panic! at the Disco - Death of a Bachelor

Eu sei que eu posso apanhar na rua em colocar um trabalho do Panic! no ranking. Mas fazer o que? Acredite, tem músicas legais ali. Eu só continuo ouvindo o grupo graças ao segundo álbum (o bonito Pretty Odd, de 2008), mesmo sabendo que quem quis fazer aquele disco não está mais na banda. Mas a teimosia às vezes dá retorno.

18º Molina y Los Cósmicos - El folk de la Frontera

Esses uruguaios estão de parabéns. Folk de boa qualidade, é uma pena que o trabalho é curto, dá vontade de ouvir mais.

17° Primal Scream - Chaosmosis

O grupo nunca seguiu uma regra fixa, mas sempre tem alguma música que gruda (Where the Light Gets In) e outras bem interessantes.

16º Suede - Night Toughts

Nunca gostei do Suede. Então para entrarem no ranking, imaginem o quanto esse disco é bom.

15° Illya Kuriaky & The Valderramas - L.H.O.M.

Gostinho de decepção de um dos meus grupos latinos prediletos. Ainda tem muita coisa boa no caldeirão sonoro dos argentinos, mas depois do majestoso Chances (2012), o álbum deixa um pouco a desejar, mesmo tendo 5 grandes músicas ali.

14º Sting - 57th & 9th

Obrigado Sting, por largar aqueles álbuns temáticos (que gostarei daqui uns 10, 15 anos) e voltar a fazer um som mais direto e comercial.


13° Radiohead - A Moon Shaped Pool

Melhor que o King of Limbs, algo já memorável. Ainda distante dos melhores trabalhos, mas aí é injusto, pois a banda tem trabalhos incríveis. Mas me soa como um bom recomeço.


12° The Jayhawks - Paging Mr. Proust

Não inventaram a roda, mas timidamente, sempre trafegaram muito bem ali no cantinho do folk / rock / country.


11° Green Day - Revolution Radio

O grupo continua no dilema entre ser um U2 pras arenas e a banda de moleques que tocam punk rock. Nessa mistura maluca, acabam sempre fazendo seus gols, mesmo que o preparo físico já não seja o mesmo.

10° Vaga Luz - Qualquer palavra pra curar

Um pop rock bem competente e de muito bom gosto, com belos timbres, com nítidos ecos de Los Hermanos e Transmissor, com grande potencial para as rádios, se estivéssemos há uns 10 ou 12 anos atrás. Som bem feito, agradável, que tem tudo para crescer, apesar das mazelas e dificuldades do mercado atual.


9º  M O O N S - Songs of Wood & Fire

O trabalho impressiona pela maturidade musical, pelo bom gosto nos arranjos e em cada detalhe, alguns bem sutis. Parece um trampo de um medalhão no folk com 40 anos de estrada, mas quem escreveu mal chegou nos 30. De idade. Surpreendente, ouça com fones.

8º Wilco - Schmilco

escrevi sobre o trabalho. O disco está longe de ser ruim, mas sabemos que os caras podem fazer muito, muito mais.

7º Rolling Stones - Blue & Lonesome

Stones renascendo, voltando ao berço em sua provável despedida dos estúdios. O disco titubeia um pouco no início, mas depois desce que é uma beleza, como uma bebida amarga ou um uísque, para os fãs. Obrigado por tudo.

6º Weezer - White Album

Uma bela surpresa. Não vou dizer que entra no pódio dos melhores álbuns deles, mas é bem superior a muitos tropeços que cometeram nos últimos anos.

5° Metallica - Hardwire... To self-destruct

Quando o Metallica percebeu que não precisa tentar reinventar a roda (como tentou em 4 trabalhos de estúdio desde 1996), mas apenas reciclar o que faz bem (como o ótimo Death Magnetic, de 2008), não tem erro. Mas precisava ser um trabalho quase interminável?

4° Bruno Mars - 24k Magic

Nada original, mas extremamente bem produzido, bem construído, munido das melhores referências (Michael Jackson, Stevie Wonder, James Brown), para fazer um dos melhores discos pop do ano. Pop até demais, eu diria, quase cansa, de tão mastigado.

3° Céu - Tropix

Só comecei a ouvir o trabalho a menos de um mês de fazer o ranking, mas me impressionou nas primeiras audições. Se se sustenta, só o tempo dirá.

2° Norah Jones - Day Breaks

CASA COMIGO, Norah!

1° David Bowie - Blackstar

Após toda a comoção, fiquei uns 8 ou 9 meses sem escutar o álbum , tentando separar o disco de sua morte, mas é impossível, estão ligados de forma umbilical. A morte pode ser bela.














quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Wilco cumprindo tabela

 Créditos: npr.org / Reprodução

Schmilco, décimo álbum do Wilco, nas suas primeiras impressões, parece um esboço, uma demo (sem nenhum demérito). Se assemelha a um rascunho de ideias, boa parte delas no violão, que carecia desenvolvimento, que não ocorreu. Algumas ficaram legais do jeito que foram concebidas, outras não.

Se minha crítica ao The Whole Love (2011) é de que poderia ser um trabalho brilhante se não sofresse do distúrbio do coito interrompido (quando as canções terminavam antes do ápice que se construía), aqui o problema é ainda anterior, é de ejaculação precoce. O prazer rápido, efêmero, está presente nas belas Cry All Day, If I Ever Was a Child, Someone to Lose e Nope. Mas não são canções incríveis, históricas, músicas que te abraçam e que você vai levar pro resto da vida. São legais, que dão ânimo na nova turnê pro grupo, que eles gostarão de tocar, mas que convenhamos, não entram em um top 30 de músicas do Wilco.

Na segunda metade, a maionese desanda, se salvam Shrug and Destroy e Locator. We Aren't the World Safety Girl lembra diversas outras bandas (Josh Rouse então, nem se fala). Commom Sense não dá, amigos. Curto esquizofrenia musical, mas tem coisa que não desce.

As demais são músicas razoáveis, porém esquecíveis. Wilco bateu ponto, lançou outro CD, nota 6. Mas desde Sky Blue Sky (2007), o grupo nunca mais soltou algo avassalador, algum trabalho que de fato nos empolgasse, seja pelo "folk pé na fossa que arrepia" ou pelos diálogos de guitarra mais inesperados.

Desde 2007, são quatro álbuns irregulares com algumas lindas canções e outras longe disso. Mas falta "liga", falta a banda assumir o "foda-se" e tentar arriscar, como no A Ghost is Born (2004) que eu particularmente sou fã, com todos os seus excessos. Faltou sair da zona de conforto e correr alguns riscos. Uma pena.

A banda é boa demais pra se acomodar. Dá até prazer o Schmilco, mas ele é meio broxante.


Ouça aqui Nope:




sexta-feira, 22 de julho de 2016

Radiohead sendo mais contemplativo do que nunca

Reprodução / Internet


Adiei ao máximo escrever sobre A Moon Shaped Pool, novo álbum do Radiohead. Demorei, pois estava imerso no descobrimento de várias bandas latinas, que coincidiu com minha viagem para aquelas bandas. Em seguida, comecei a ouvir este álbum, mas o Radiohead não é um grupo que você escuta por três dias diretos, uma semana e já arrota uma palavra de efeito pra ficar marcada. Até porque é um trabalho em marcha lenta, que carecia também de uma demorada audição.

O grupo possui discos completamente distintos, mas que, na minha concepção, são interligados e sugerem que há um fluxo, mesmo que as coisas não necessariamente corram para o mesmo lado. Trocando em miúdos: o Radiohead sempre se constitui de várias facetas. Era uma no Pablo Honey (1993), The Bends (1995) e OK Computer (1997), outra em Kid A (2000), Amnesiac (2001) e Hail to the Thief (2003), outra em King of Limbs (2011)  e uma próxima a esta, de A Moon Shaped Pool (2016) que dá as mãos para o In Rainbows (2007).

A banda volta a soar como "banda", volta a ser mais orgânica, sem abrir mão de toda a sua (não) musicalidade que se aprofundou no pós-apocalipse de Kid A. Mais um trabalho que é indispensável o uso de fones, para (tentar) compreender as camadas sonoras que constituem cada música, que foi premeditada e concebida sem pressa, sem se esquecer de limpar as gavetas.

Decks Dark é incrível. Há um piano em frenesi, uma guitarra repetitiva. Um coral lindo, e uma outra guitarra sutil no refrão, que é absolutamente indispensável. Daydreaming representaria a saída da caverna do grupo, após os últimos anos, contrastando com o próprio videoclipe da canção, em que Yorke entra em uma caverna, mas a mensagem é que as portas se abrem. Balada que apresenta um certo charme, e também alguma claustrofobia que a difere de tantas outras da banda.

Burn the Witch tem belíssimo vídeo e mais méritos do que parece. Ouça separadamente os arranjos orquestrados, o baixo, os violinos. Construção complexa e resultado interessante. Glass Eye se destaca com os arranjos orquestrados que complementam a letra melancólica. Identikit também chama a atenção pelas vozes entrelaçadas, a guitarra ora simples (quando aí o baixo rouba a cena) e  também tomando à frente da canção, digna de um.. Solo de guitarra.

A mesma regra em The Numbers. Nada empolga, mas prende a atenção, pelas sutilezas e suas decorrentes construções. Uma percussão que quase lembra samba, violões que se entrelaçam e vozes de todos os lados pontuam a calma Present Tense.

Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief se salva com a orquestra, no fim. E True Love Waits, já é uma velha conhecida, que ganhou forma e corpo, para se revelar bela como sempre foi.

Não é, nem de longe, o melhor trabalho do grupo e definitivamente não é o pior. Mas fica cada vez mais difícil comparar tantos "Radioheads" durante essa trajetória de mais de 20 anos. O que podemos dizer é o que o grupo mais uma vez flerta em soar mais melódico, mais orgânico, mas sem ter a menor pressa. O importante é contemplar, sentar em uma poltrona, deitar na cama e escutá-lo, calmamente.

Imbuído deste espírito, A Moon Shaped Pool cresce. Recheado de detalhes, construções rítmicas, camadas sonoras, ele não encanta, mas convence.

Assista ao videoclipe de Daydreaming:





quarta-feira, 23 de março de 2016

Iron Maiden faz um show digno e alegra gerações

Crédito: Alexandre Bastos / G1

Sou um metaleiro tardio. Desde moleque sempre curti Black Sabbath e Metallica, mas nunca me aprofundei muito no estilo. Até escutar e gostar bastante de The Book of Souls, recente álbum do Iron Maiden. Aí resolvi escutar tudo e me surpreendi com a qualidade dos trabalhos, principalmente na década de 80. Grandes álbuns.

Mea culpa feita, vamos aos fatos. Não me incomodo do grupo fazer uma turnê do último álbum e tocar algumas faixas dele (foram cinco, acho), ainda mais sendo um trabalho legal. Acho que tem que ser assim e não apenas ficar revivendo o passado. Mas sim, me incomoda a banda abrir mão de alguns hits, como Run to the Hills e Can I Play with Madness?. Fizeram muita falta. Poderiam esticar um pouco o setlist de 15 músicas.

O ginásio Nilson Nelson estava lotado. Um calor absurdo, chegando ao ponto de ficar desagradável. Uma sauna. A acústica, como já era de se esperar, era lamentável. Fiquei na pista, perto da mesa de som e ali estava menos ruim. O Iron Maiden merecia um local melhor. E o público também. A única vantagem é que, ao contrário do Mineirinho, o ginásio não é tão grande, então de qualquer lugar, da pista ou arquibancada, o palco está próximo.

Vários ambulantes vendendo pipoca, hot dog e churros. E não vendiam nada. Já para comprar cerveja, sempre uma fila de uns 10 minutos. E alguns lugares aceitavam as fichas e pasmem, em outros não, precisava usar dinheiro. Então, para que raios existem as tais fichas?

Atenção produtora: creio que não deve ser o primeiro show de metal que vocês fazem, então vou explicar o óbvio: roqueiro/metaleiro vai no show pra beber. BEBER. Ele come? Sim. Na saída do show, um sanduíche, churrasquinho ou hot dog no primeiro podrão suspeito que ele encontrar. Em alguns lugares faltou cerveja e quando o estoque era reposto, ela estava quente. Beber uma latinha de Budweiser QUENTE que custava 10 reais dói na alma. E no bolso.

Apesar dos pesares, foi um ótimo show. Bruce Dickinson conseguia alcançar as notas mais altas, mas não conseguia sustentá-las, mas considerando a idade e o fato de que ele venceu recentemente um câncer na boca, estamos todos no lucro.

E pela primeira vez, não comprei uma camiseta, como faço em todos os shows. R$ 120 ficou bem acima de um valor razoável para um fã. Mas apesar dos pesares, o saldo é positivo.

E sobre o Anthrax, o show foi muito curto (30 minutos, mais ou menos), mas eu gostei bastante. E também gostei do comportamento do público, mais preocupado em curtir o show do que nas selfies. E muitas famílias, fazendo o metal passar adiante por gerações. O metaleiro é fiel.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Ao David

Créditos: nafuma.com.br / Reprodução

Demorei a escrever, esperei a ficha cair. Não cai. A morte do David, mesmo assimilada, ainda é de difícil aceitação. Sim, do David. Me senti como se tivesse perdido alguém da família, um amigo próximo.

Isso nunca me ocorreu. Nunca fui um fã apaixonado, apesar de sempre acompanhar sua carreira com atenção e gostar de muita coisa em sua discografia, principalmente a década de 70 e início de 80, que são absurdamente bons. Mas a morte dele bateu. Doeu. Dói.

Talvez por tudo o que ele representa não só na música, mas como artista. Da gama absurda de gente que ele influenciou, das mais variadas vertentes e raízes musicais. Das pessoas que percebi que estavam de fato sofrendo, chocadas, pois a arte que ele fez encurtava distâncias, driblava culturas e fazia significado para qualquer um de nós.

Da sua carreira em si, sempre surpreendente, sempre tentando algo novo e diferente, mesmo errando. Um incomodado, um desbravador, um monstro, que deixou canções e mais canções na história.

A sua despedida foi premeditada. Terminar um álbum com seis paradas cardíacas no período é um sintoma óbvio de que aquele era seu último tiro. Seu último suspiro. Felizmente, ele o completou e deixou dois videoclipes lindos, repletos de mensagens a respeito da sua morte (já tentei fazer uma análise semiótica, é coisa que dá trabalho e que até me falta conhecimento).

Nada ali é por acaso e ele deixou sua mensagem, se despediu sem alarde e deixou que o rebuliço ficasse por nossa conta. A incredulidade, a tristeza e a emoção de uma despedida tão significativa, encerrando uma carreira tão bonita, com seus altos e baixos, mas sempre apontando adiante, à frente do seu tempo, influenciando a música, a moda, o cinema, o comportamento e tudo o mais que fosse possível.

Jamais haverá outro David como o Bowie. O talento dele era do nível dos maiores que por aqui já estiveram e estão. A música vai perdendo a graça, a cor. É passar o legado dele adiante, para que mesmo morto ele continua vivo para nós.

Este clipe é incrível, repleto de referências da sua morte, que estava próxima. O álbum inteiro, desde o nome, até sua arte, foi brilhantemente pensando a este respeito. Até no crepúsculo da vida, David Bowie foi genial e decidiu sê-lo após partir da Terra. Só temos que aplaudir e reverenciar.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Scott Weiland e a morte definitiva do Stone Temple Pilots

Créditos: Stylebistro.com / Reprodução


A notícia da morte de Scott Weiland, aos 48 anos, entristece, mas não surpreende. Quem acompanha a trajetória dele, marcada por excessos de toda a natureza, sabia que sua morte poderia acontecer cedo ou tarde, mesmo ainda sem ter a certeza se ela foi por decorrência do consumo de drogas ou não.

O importante, principalmente nesse espaço, é da obra, do legado que ele deixou. Nunca fui fã do Velvet Revolver, apesar de reconhecer que ali tinha até alguns momentos interessantes. Mas no Stone Temple Pilots, eles foram muito além de "mais uma banda que parecia o Pearl Jam". Primeiro, porque o tempo mostrou que não parecia tanto assim. Segundo, em virtude de suas músicas, principalmente nos três álbuns iniciais Core (1992), Purple (1994) e Tiny Music... Songs from the Vatican Gift Shop (1996), apesar de eles terem coisas bem legais ainda nos trabalhos posteriores, como Days of the Week, de 2001 e Dare If You Dare (2010).

O Stone Temple Pilots nos últimos anos, sem ele, é outra banda com seus acertos e erros. Ele era a voz da banda, muito além de ser o vocalista. Mas ele podia voltar, ele sempre poderia voltar, como voltou em 2010, para sair logo em seguida. Agora não voltará mais. É o fim de um ciclo.

Ainda adolescente, eu tinha a mania de gravar em fita VHS os videoclipes e shows que passavam na TV. Cultivei esse hábito por anos. Foram dezenas de fitas (cerca de 70 ou 80), com 6 horas de material em cada. São milhares de músicas e shows, todos catalogados e guardados em algum lugar na casa da minha mãe.

A primeira música, da primeira fita, era essa aí abaixo. Fica meu agradecimento e reconhecimento por tudo o que fizeram. Obrigado, Scott. Descanse em paz.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Foo Fighters na zona de conforto

Reprodução / foofighters.com


Ontem o Foo Fighters disponibilizou em seu site o EP Saint Cecilia. São cinco faixas e nenhuma surpresa. A banda não ousa, simplesmente trafega em sua zona de conforto, trazendo canções que ficam ali na média, meio sem dizer muito, mais mesmo para pontuar o fim de um ciclo do grupo.

A faixa-título ostenta os mesmos ingredientes que fizeram eles serem quem são. Aquele rock palatável, refrão grudento, baixo acompanhando a voz e as guitarras e bateria crescendo no momento certo. Sean podia estar ali no One by One (2002) tranquilamente. Não acrescenta em nada, um b-side que mereceria ser b-side se este EP não existisse.

A "Motorheadiana" Savior Breath é um pouco mais ousada, suja e interessante. Aí começa Iron Rooster e sim, enfim, um grande momento. A banda prossegue afiadíssima nas canções mais lentas e esta lembra alguma das melhores que já fizeram. Ela poderia estar ali no Echoes, Silence, Patience and Grace (2007) ou mesmo lá no In Your Honor (2005), na seção acústica.

The Neverending Sigh segue a cartilha de Saint Cecilia. Não há um espanto, não surpreende. Não é como Wasting Light (2011), que realmente foi um assombro, recheado de belas composições. E também está longe de um There is Nothing to Lose (1999) e sua coleção inesgotável de hits. Parece que juntarem uns b-sides e deu nisso aí. Parece que tinham algumas diárias ainda no estúdio que alugaram e resolveram gravar isso aí, antes da galera recolher os instrumentos e cada um tomar o seu caminho nas férias.

A banda deve dar um tempo, pra cada um cuidar da sua vida e realizar outros projetos (Dave Grohl vai tocar em 58 projetos diferentes, dirigir algum documentário e gravar outros discos com outras pessoas, Taylor Hawkins vai surfar, Nate Mendel deve fazer uns shows com sua antiga banda, Pat Smear deve curtir as noites e não faço ideia no que faria o Chris Shiflett).

Esta pausa pode ser boa para o futuro reencontro do grupo. Wasting Light foi assim e deu muito certo. Às vezes, eles saem do piloto automático e se permitem arriscar um pouco mais. Pois qualidade e recursos para isso, eles possuem de sobra. A questão é se de fato é isso que eles desejam.

Ouça a música Iron Rooster:




segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Músicas quase esquecidas #4

Créditos: alternativenation.com / Reprodução

Aproveitando a passagem do Pearl Jam pelo país, prossigo esta série com eles. A banda possui uma porção de músicas lindas. Escolhê-las não é uma tarefa das mais fáceis. Resolvi filtrar apontando o meu álbum preferido deles o Yield (que não é o melhor da banda, porém) e que foi massacrado pela crítica, ao menos quando foi lançado.

Dentre muita coisa legal, escolhi Faithfull. Não é pelo nome, de algo que tanto falta na humanidade nestes tempos cascudos, mas sim pela música, que é linda, que emociona, que te abraça.
Até de coisas mais sutis, como os timbres das guitarras, timbre da caixa da bateria, do bumbo, dos pratos, do baixo, combinam com o do que mais gosto. Uma bela construção.

A banda tem várias baladas dignas de nota, não consigo mensurar qual gosto mais, mas esta, junto com este álbum, teve um efeito devastador em mim. Como uma avalanche de lama, que me varre, altera e transforma uma paisagem.

Ouça a música:


 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Músicas quase esquecidas #3

Créditos: rollingstone.com / Reprodução

O ano era 2001. Eu trabalhava em uma locadora de CDs e DVDs (saudosa CD Point). Os caras importaram esse álbum acima para a locação na loja. Não conhecia o artista. Claro, como quase todo mundo, brinquei com a semelhança do nome desse tal de Ryan Adams com o já conhecido Bryan Adams.

Assim que escutei o disco (Gold, segundo da carreira que já somam 15, em 15 anos), perdi o chão. Trafegando nesse terreno entre o rock'n'roll, o country rock, o blues e o folk, é/era basicamente as coisas que mais gosto/gostava de ouvir. Para um velho fã de Creedence Clearwater Revival e Neil Young, era um sopro de vitalidade nas músicas que gostava (adendo: o Wilco é um capítulo à parte).

O álbum é muito bom e existem muitas canções ali que poderia apontar, e que talvez apontarei em postagens futuras, como Firecracker, Answering Bell, Touch, Feel and Lose e The Rescue Blues. Mas naquele primeiro momento, em que atendia a clientela, uma me chamou particular atenção, pois eu atendia o cliente por alguns minutos e ela ainda estava ali, ecoando nas caixas de som.

Nobody Girl é uma canção com letra subjetiva e que vai crescendo gradativamente, sem cansar em nenhum momento, em seus quase 10 minutos de duração, que sinceramente, são poucos. Arranjos primorosos, ótimos timbres de guitarra e bateria (que infelizmente ele não mais os utiliza hoje) e muita emoção em cada acorde sublinham essa linda música, fadada ao esquecimento, na qual o refrão só chega a plenos pulmões aos 3'30'', quando um terço dos músicos famosos da humanidade já encerravam suas músicas.

Reserve este tempo e divirta-se. Confira abaixo a música.



terça-feira, 27 de outubro de 2015

20 anos de um disco absolutamente indescritível

Créditos: npr.org / reprodução

Um chute na porta, um soco na cara, uma cabeçada no peito. Uma força até hoje pouco compreendida faz de Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995) a essência de uma geração, o retrato de um grupo em seu auge, que se perdeu em influências tão díspares e obteve uma sensibilidade ímpar em canalizá-los, sem tirar o pé do acelerador. Rocks contundentes, baladas de cortar os pulsos e tem ainda orquestração, música instrumental, muita distorção, eletrônica, violões, uma miscelânia indescritível que até hoje emociona, faz rir, chorar. Não há um porquê.

Eu era moleque. Foi o primeiro álbum que conheci deles. Paguei R$ 23,90, um preço absurdo para a época (na Acústica CD's Shop, loja que ainda existe na Savassi, em BH). Clipes rolando aos montes na MTV, um melhor que o outro, músicas absolutamente distintas, mas todas eram (e ainda são) absurdamente belas: Bullet With Butterfly Wings, Tonight, Tonight, 1979, Zero, Thirty-Three. Cinco singles majestosos. Lembro que escrevi uma resenha na época (não lembro se foi pra jornal, revista, blog, era ali em meados de 2000, creio) e cravei que das 28 músicas, "20 eram excepcionais". E escutando agora, 20 anos e 3 dias depois, percebo o quanto esse álbum continua necessário e envelheceu bem.

Na época em que as festas durante as tardes eram vazias, ao mesmo tempo em que me empolgava cada vez mais com o britpop e o grunge, veio este cd que sepultou o (bom) trabalho que faziam até então. Pegaram essa crueza dos dois primeiros trabalhos e colocaram mais peso, mais barulho. Ao mesmo tempo, retiraram boa parte do peso que lá havia. Acrescentaram pitadas de rock progressivo, heavy metal, folk e New Order. Estava fadado para a incompreensão. Mas vendeu mais de 20 milhões de cópias na época e jogou o grupo em outro patamar, de onde ele lutou para se situar nos anos seguintes, mas acabou sendo implodido de dentro pra fora. Hoje, Billy Corgan cansou de juntar os cacos e curte mais quebrar vidraças. Bola pra frente.

Destrói a mente, destrói o corpo, mas jamais destrói o coração. Em um imenso poço de "melancolia e infinita tristeza" ainda havia uma luz, havia algo bom, que se contrastava com o clima sombrio. Esse emaranhado de sentimentos se dividia entre canções formidáveis, calmas e doces que faziam ninar até um tiranossauro como Galapogos, In the Arms of Sleep, To Forgive, By Starlight, Lily e We Only Come Out at Night. O oposto, beirando o caos, na qual pregava que "amar é o suicídio" (Bodies) e (ainda) mais barulho era necessário nas ótimas Fuck You, X.Y.U., Where Boys Fear to Tread, Jellybelly e também nas quase obscuras e praticamente perfeitas Here is No Why e Muzzle. Além de duas músicas que são tão belas que chegam a doer, para ouvir sem pressa: Porcelina of Vast Oceans e Thru the Eyes of Ruby.

Um momento único para o grupo e para mim. O estrago foi feito. Eles nunca mais foram os mesmos. Nem eu. Ele mudou completamente a minha vida, está no meu top 10. Escrevi essas linhas todas, mas ele segue sendo indescritível. Desculpem pelo tempo que tomei de vocês.

Sofra do meu desejo:




quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O deluxe do deluxe: Stones em Sticky Fingers

Reprodução / blogspot.com

Não tenho muito o que dizer sobre os Rolling Stones. Primeiro álbum de rock que ouvi, grupo que mais escutei em toda a minha vida. Ostento orgulhosamente quase toda a discografia original em CD, mesmo em épocas de mp3 e o escambau. Um orgulho palatável que ganha poeira na minha prateleira, lá em Belo Horizonte.

Aí cai nas minhas mãos a versão deluxe de Sticky Fingers (1971) do grupo. É uma edição com um bom encarte e dois CDs. O original, remasterizado e outro, bônus, com algumas coisinhas interessantes que escrevo algumas linhas aí pra baixo.

Me assustei pelo preço que encontrei na Amazon (130 dólares), aí percebi que existe a versão "crème de la crème", com 4CDs, um vinil, um livro e mais uma cacetada de coisa, que vemos aí abaixo:

Reprodução / bravewords.com





Aqui falamos de uma edição mais enxuta, para fãs menos endinheirados, mas mesmo assim não menos curiosos por raridades, b-sides e versões alternativas da maior banda de rock'n'roll, quando estava em seu auge (que considero de 1967 a 1978, enquanto a maioria infelizmente se prende entre 1969 e 1974).

A CD 1 dispensa comentários, é chover no molhado sobre um dos grandes trabalhos da história do rock. Ele entra em qualquer Top 5 (Top 3?) dos Stones e celebra talvez o auge blueseiro do grupo, que continuou presente nos anos seguintes, mas amealhou outras influências.

No CD 2, começamos com Brown Sugar, gravada no estúdio, com Eric Clapton fazendo steel guitar. Versão diferente, com um final interessante, com menos sax e menos vozes de Jagger, com as três guitarras dialogando surpreendentemente. Wild Horses, rotulada de "versão acústica" é sublime como sempre foi. Imagine a versão que a banda vez no disco Stripped (1995) e dê a ela uma vitalidade de 24 anos. É isso.

Can't You Hear Me Knocking ainda tem seu riff matador, mas é uma versão mais curta, desleixada / charmosa como se fosse gravação de ensaio. Após a pedrada de Bitch, temos uma versão maravilhosa de Dead Flowers, que é menos country (nada contra) e mais folk, com a guitarra de Keith Richards se sobressaindo com propriedade.

Daqui em diante, é um registro de um show em 1971. Live with Me, Stray Cat Blues, Love in Vain, Midnight Rambler e Honky Tonk Women. Já ouvi outros registros de shows da banda no início dos anos 70 (ouçam os discos Get Yer Ya-Ya's Out! de 1970 e Brussels Affair, de 1973, por favor) e é sempre o "deluxe do deluxe". Sempre com algum improviso e uma vitalidade que impressionam. É o grupo desfilando seu melhor repertório, na época em que estavam na sua melhor forma. Não tem erro.

E aqui não é diferente. Dois exemplos: Live With Me ganha mais piano no início e mais metais no fim. Love in Vain apresenta um solo de guitarra inacreditável (de Mick Taylor, presumo). Com seus quase 12 minutos, Midnight Rambler celebra o melhor do blues.

Serve para fãs, iniciantes e iniciados quando o assunto é Stones. É um disco fundamental e um retrato de uma banda que era simplesmente espetacular em estúdio e no palco. O pouco que resta dela virá ao Brasil em 2016. Vale a pena para quem nunca viu.

Mas a essência está aqui neste CD, nos 4 álbuns anteriores e nos 5 trabalhos posteriores. Dez obras do melhor que existe no rock and roll.

A versão alternativa de Brown Sugar, abaixo:
 



terça-feira, 13 de outubro de 2015

Músicas quase esquecidas #2

reprodução / mercadolivre.com.br

Quando passei no vestibular na UFMG para Ciências Sociais, fui aprovado para estudar no segundo semestre. Então, tinha cerca de seis meses pra não fazer porra nenhuma para fazer algumas pendências que postergava até então, como tirar carteira de motorista e curtir as férias prolongadas. Fiz isso em Itabira/MG. Morei por uns 2 ou 3 meses na casa dos meus avós.

Foi a melhor e pior coisa que já me ocorreu. Melhor porque pude conviver com meus avós, tios e primos de lá e isso é sempre legal. Pior, porque meus avós são de uma época, que ter saúde é ser gordo. E minha avó cozinhava muito bem. Fazia o melhor cachorro quente que já comi. E o melhor sorvete. E bolo de chocolate... Enfim... Sempre quis agradar os netos. Nem lembro quantos quilos ganhei, mas foram vários. Era um obeso feliz.

Eu tinha um disc-man (!) e meus cds tinham ficado em BH. Precisava ouvir alguma música e fui atrás de alguns CDs. Fui em uma lojinha de cds na Rua Água Santa (Centro), que nem existe mais e achei esse CD (da capa) bem barato (uns R$ 15).. O ano era 2000. Já conhecia e gostava muito do Jamiroquai, tanto o primeiro, Emergency on Planet Earth (1993), mais pro acid-jazz, como do The Return of Space Cowboy (1994), que já era mais experimental e variado, até o premiado Travelling Without Moving (1996), recheado de hits como Virtual Insanity, Cosmic Girl e Alright.

Este álbum da capa é Synkronized (1999), uma ruptura do que o Jamiroquai fazia. Vários músicos da banda foram trocados (saíram o baixista, guitarrista, percussionista, DJ), a banda ficou mais "farofona", mais "banda de festa", com backing vocals e tal. Mas ainda restava um ranço bacana dos discos anteriores, boas pitadas de soul, funk e disco. O acid-jazz, de fato, abandonaram.

Muitos bons momentos presentes: Canned Heat, Black Capricorn Day, Soul Education e (principalmente) Falling (música linda!) são os destaques. Mas lá pelo final do disco, eles gravaram algo que nunca tinham feito (e não fizeram desde então). Uma balada, com voz, baixo, bateria, piano e uma orquestra: King for a Day.

Até hoje é uma das melhores canções do grupo, sendo ao mesmo tempo uma música que menos faz jus ao som considerado "típico" do Jamiroquai, mas que mesmo assim reforça como a banda sabia/sabe passear por diversas vertentes.

Após este trabalho, o nível dos discos caiu consideravelmente (se salvando alguns hits excelentes, como Seven Days in Sunny June e You Give me Something). As coisas voltaram aos eixos no ótimo Rock, Dust, Light, Star (2010), mas isso fica pra outro texto.

Assistam abaixo o videoclipe de King for a Day:



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Músicas quase esquecidas #1

Reprodução / factmag.com

Existia um sebo na Savassi, em Belo Horizonte, que se chamava "Páginas Antigas" (rua Fernandes Tourinho, onde hoje é uma papelaria/livraria). Começou com livros e logo percebeu que comprar e vender CDs usados era uma ótima opção, pois comprava por R$ 4 ou R$ 5 e vendia pelo dobro, ou próximo disso. No final da década de 90, eu ia lá uma ou duas vezes por semana, conferir as "novidades".

Pois é, nessa época, o Smashing Pumpkins, banda que James Iha fez parte em seu melhor momento, era talvez a maior banda dos EUA, após o excepcional Mellon Colline and the Infinite Sadness (1995) que vendeu por lá mais de 10 milhões de cópias. Eu, que já era fã da banda, vejo esse cd amarelinho na estante e comprei, por R$ 12,50 se não me engano.

É um bom álbum (lançado em 1998), porém nada excepcional (acho o posterior dele, o Look to the sky, de 2012, melhor), mas tem algumas canções bem interessantes. É um disco calmo e alegre, bem diferente do clima de "melancolia e infinita tristeza" dos Pumpkins.

A ótima Be Strong Now foi a música de trabalho pra rádios, videoclipes, etc. Mas recomendo a faixa seguinte, Sound of Love, uma pequena preciosidade, quase esquecida. Iha está feliz e isso reflete na música leve, ensolarada, com belo refrão e bons arranjos. Confiram abaixo.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Wilco e sua síndrome do freio de mão puxado

Créditos: rockcabeca.com / Reprodução


Outro texto estava pronto. Era sobre Star Wars, nono disco do Wilco. Tecia duras críticas, mas também ressaltava que nem tudo estava perdido. Não sei o porquê, mas o Blogger perdeu o rascunho. Fiz um relato bonito, até. Cheio de floreios, alusões, naqueles breves momentos de inspiração que um mísero backup restabelecia meu ânimo.

Leia também (outros textos meus)

Tudo pelo ralo. Recomeço do zero. Escrevo movido pelo sentimento das músicas que ouço, no ritmo que me convém. E esse trabalho me motiva até a reescrever sobre ele, pois desde que perdi o texto, minha percepção sobre essas 11 faixas acabou mudando um pouco, ficando menos pessimistas. Mas não há motivo para festa. Este disco não está nem no céu, nem no inferno, mas a paciência no purgatório está no fim.

Fazendo uma breve recapitulação, a banda apresenta duas (ou melhor, três) fases distintas. A primeira, até 2002, na qual Jeff Tweedy recebe valiosa contribuição de Jay Bennett na construção das músicas. É a fase "Wilcão de raiz", com country, rock e folk, onde o protagonismo melódico é do violão. Os quatro primeiros discos são da época e são consenso entre todos os fãs, que são soberbos, irretocáveis: AM (1995), Being There (1996), Summerteeh (1999) e Yankee Hotel Foxtroit (2002).

Bennett saiu do grupo (e infelizmente faleceu 7 anos depois) e entraram Neils Cline (guitarra), Pat Sansone (teclado e guitarra) e o baterista foi substituído (Ken Croomer por Gleen Kotche). A banda mudou muito. É a segunda fase, com os mesmos integrantes há mais de uma década. A banda ficou mais roqueira, mesmo sem perder as raízes.

Nesse momento, o Wilco lançou meus dois trabalhos prediletos: o exemplar A Ghost is Born (2004) e o maravilhoso Sky Blue Sky (2007). Mas dali em diante, a maionese desandou. É a fase atual, na qual a banda lança trabalhos que não são ruins, mas que parecem pálidos, erráticos, que definham perto da grandeza do que até então produziram.

Wilco (The Album), lançado em 2008, para alguns foi o "primeiro disco ruim da banda". Não acho, um trabalho nota 6. Mas está abaixo dos demais, sem dúvidas. Aí veio The Whole Love (2011) que eu gosto (bastante, até), apesar de sofrer da síndrome do "coito interrompido": em várias músicas, quando o ápice parece chegar, a canção termina (não sei se culpa da banda, produtor ou de ambos). Podia ser um álbum nota 8,5 mas só alcança um 7.

Aí temos, enfim, Star Wars. Diferente do anterior, apenas se assemelha na minha decepção em alguns momentos, por interromper as músicas antes das melhores partes que poderiam vir. Fora isso, alguns tem belos momentos. Magnetized é linda, claramente influenciada por John Lennon. O início do cd também é bem bom, com a dobradinha More... e Random Name Generator (que baixo sensacional).

Taste the Ceiling é a típica canção fofa do grupo, na qual se gosta na primeira audição. Já no restante do álbum, o esforço para gostar é maior e muitas vezes, em vão. A banda às vezes se mostra acomodada, sem muita ousadia e pisando em territórios sonoros já explorados por ela mesma. Em outros, parece preguiçosa mesmo, até mesmo You Satellite, que é bem interessante, poderia ir muito além, como fizeram com maestria no A Ghost is Born ou até mesmo no The Whole Love. Parece um carro que anda com o freio de mão puxado.

Quando olhamos para o retrovisor, o que mais nos chama a atenção é o que está mais próximo de nós. No caso do Wilco, são Star Wars, The Whole Love e Wilco (The Album), nesta ordem. Sinceramente, não dá para equipará-los com o restante da discografia.

Não chego ao ponto de cravar uma 'decadência' do grupo, mas essa fórmula de ganhar um jogo por 1 a 0 jogando na retranca não me convence. Star Wars, se compararmos com outras bandas (com mais de 20 anos de estrada) que lançaram discos ruins não é um tropeço notável (como Around the Sun, do R.E.M.), nem é um álbum que já nasceu morto (como The King of Limbs, do Radiohead). Há vida, mas no "nosso 7x1 de cada dia", após duas bolas na trave, está para vir um gol contra. Está na hora da reação.

Ouça Magnetized, do Wilco:


segunda-feira, 18 de maio de 2015

Blur de volta. E bem.

Créditos: emptylighthouse.com/ Reprodução

Pois é, 2015. Não dá pra esperar aquela alegria juvenil dos primeiros álbuns, o apogeu festivo de Parklife, a tremenda sacada (e flerte com a América) no lindão Blur (famoso álbum de capa amarela, quando a capa de cds ainda eram relevantes), ou quando chutavam o balde em um álbum excelente, experimental e triste (13), apesar de os singles do mesmo discordarem.

A mesma formação gravou um novo trabalho, após 16 anos (sim, tivemos o bom Think Tank, mas nele Graham Coxon participou de uma mísera música e saiu da banda). Desde então, Damon Albarn embarcou em alguns projetos (todos acima da média, bom ressaltar), Coxon gravou álbuns (irregulares, mas com muita música boa), Alex James foi cuidar da fazenda e Dave Rowntree até tocou como DJ em Brasília.

O que esperar do novo trabalho, The Magic Whip? Um pouco disso tudo (Blur alegre, experimental, Gorillaz, acústico), mas com o peso da idade. E após algumas audições, de fato tudo está ali. Menos o peso da idade, que está presente apenas na barriguinha dos integrantes do quarteto. O álbum, se mostra jovial, não da forma como Leisure (lá de 1991, o debut), mas se apresenta leve e disposto, mesmo sendo tão diverso (o que não chega a ser surpresa se tratando de Blur).

Os anos 90 estão vivos em músicas como Lonesome Street. Go Out é alegre, pop, pegajosa e tem aquela guitarra maravilhosamente suja de Coxon. As boas Ice Cream Man e Pyongyang caberiam facilmente no 13. O Blur sempre tem uma música mais agitada/guitarreira (lembram de Crazy Beat, Chinese Bombs, B.L.U.R.E.M.I.,  Bank Holiday?), a deste disco é I Broadcast.

Baladas sempre fizeram parte e aqui estão muito bem representadas:  My Terracotta Heart, New World Towers Thought I Was a Spaceman. A linda Ghost Ship podia ser Gorillaz (apesar da guitarra de Coxon ser bem peculiar). Ong Ong é outra faixa mastigadinha, palatável, agradável, fácil de gostar para fãs antigos e novos.

Há uma teoria que desde o cd Parklife (1994), a ultima faixa de cada álbum é uma pista de como será o próximo ou de como será a banda. Nessa onda, Mirrorball prevê um futuro interessante, porém um pouco nebuloso.

Cada música é envolvida por diversas camadas sonoras compostas de sirenes, diálogos, toques de telefone, piano e outras esquizofrenias da banda, portanto escutá-lo com fones de ouvidos deixa The Magic Whip ainda mais interessante. Não esperem hinos como The UniversalTender ou Charmless Man. Mas ainda assim, são boas canções que deixam claro que o retorno do grupo valeu a pena.


Assista ao videoclipe de Go Out:

terça-feira, 28 de abril de 2015

Noel Gallagher canastrão, mas ainda competente

Reprodução / euescuto.com.br

Nesse momento que este texto e más traçadas linhas é divulgado, boatos (novamente) da volta do Oasis estão fortes. Enquanto isso, o cérebro da turma, Noel Gallagher lançou no início do ano seu segundo trabalho com os High Flying Birds,  Chasing Yesterday é o nome do álbum, mas na verdade pauta não só este trabalho, mas como toda a carreira do músico. Mesmo quando quer dar um passo adiante, Noel dá uma piscadela para o passado. Isso está claro em toda sua carreira (desde Oasis) e mais do que nunca neste álbum.

"Voando Alto", resenha do show de Noel Gallagher's High Flying Birds no RJ em 2012

Outro sintoma importante deste trabalho é de como Noel está cada vez mais focado nas composições, nas melodias e menos em seu ofício de guitarrista. Isso já ficou claro no primeiro trabalho, mas agora está ainda mais latente. Riverman é o baixo que se destaca, além do leve flerte de Wonderwall no início (e da letra, com o início de Something dos Beatles). Merece registro o sax bem canastrão, bem Sting ao final.

In the Heat of Moment é o chiclete que gruda e faz cantar, mesmo sem emocionar. The Girl wih X-Ray Eyes vale pelo baixo (de novo!). Lock All the Doors lembra Morning Glory (do... Oasis).

Os destaques são: The Dying of the Light com bela letra e melodia. Ponte e refrão do jeito que Gallagher ensinou em seus melhores momentos. Boa surpresa também é The Right Stuff e seu estilão meio jazz (canastrão, algo que Noel não curtia). Solo de guitarra no fim, mas perceba: é pouco perceptível. E o sax, novamente presente.

É um trabalho melódico, na maior parte calmo, com alguns lampejos do que Noel Gallagher sabe fazer de melhor. Não é um trabalho ruim, mas é nítido que ele pode ir além. Se é um esgotamento e por isso o Oasis pode em breve se reagrupar, só o tempo irá dizer.

Mas fica um gostinho de que podia ser melhor, apesar de seus bons momentos. Impossível impedir de Noel de perseguir o passado. Só precisa de um pouco mais de afinco.

Assista ao videoclipe de Ballad of Might I de Noel Gallagher's High Flying Birds:



sábado, 28 de março de 2015

Smashing Pumpkins em 2015: um show conveniente

Brian Rasic / REX


Há alguns dias tive uma ótima discussão com amigos no Facebook após postar o vídeo do show do Smashing Pumpkins no Chile. E ontem pude conferir ao vivo a apresentação da banda, em Brasília.

O show ocorreu no Net Live Brasília, que recebeu cerca de 3 mil pessoas (no meu olhômetro), ou 50 mil de acordo com a PM, metade de sua capacidade. O som no local estava apenas razoável, mas de acordo com relatos, "melhorou muito" em relação aos outros shows no mesmo local. A fama de "sauna" não se justificou, lá dentro estava um clima agradável (também favorecido uma noite fresca, com temperatura em torno dos 18 graus na hora do show).

Sobre a banda, serei econômico. É um grupo que marcou os anos 90, com um álbum simplesmente extraordinário (Mellon Collie and the Infinite Sadness, de 1995) e os demais "apenas" muito bons até 2000, quando a banda acabou.

Aí concordo com o Mauricio Angelo quando afirma que desde então, ninguém freou a megalomania do Billy Corgan. Com isso, aparecem trabalhos até aceitáveis como o Oceania (2012) com outros que deixam bastante a desejar, como o Zeitgeist (2007).

Assista a banda tocando 1979 em Brasília:



Pois bem, a pergunta que vocês me fazem. Se vale a pena ver o show? Sim, vale. A banda apresenta alguns hits de forma apenas correta, mas que sacia de certa forma a saudade dos fãs. A formação é enxuta e os demais músicos são discretos, meros coadjuvantes. Cerca de metade do setlist são de canções pós-2000. Aí entra a conveniência: você pode ir pra fila da cerveja sem pressa (até porque o atendimento no Net Live deixou a desejar) e se abastecer. Passei uma parte do show ali na fila, acompanhando as músicas novas, que até não são ruins, mas é uma safra bem inferior que a dos anos 90.

Se você parar pra pensar que pagou ingresso pra ver apenas 8 músicas muito boas, você pode até questionar. Mas quando escuta 1979, Bullet With Butterfly Wings, Ava Adore, Cherub Rock, Stand Inside Your Love, Today, Disarm e Tonight, Tonight, percebe que valeu a pena.

Sim, quase imperdoável não tocar The Everlasting Gaze, Zero, Perfect ou até mesmo alguma outra balada como Thirty-Three. Mas Billy Corgan cria e segue suas regras, para o seu próprio mundo. Cada show é uma surpresa. Há 5 anos, no Festival Planeta Terra, ela foi negativa. Agora, com baixas expectativas, o show foi aceitável, conveniente.

Mas não olhe no retrovisor, é uma covardia comparar este grupo com o de 20 anos atrás, como é também nos compararmos com nós mesmos, em 1995. Era outra banda e nós, outras pessoas.

p.s.: não perdi meu tempo assistindo o Young the Giant, valeu mais a pena beber cerveja na porta.