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quarta-feira, 23 de março de 2016

Iron Maiden faz um show digno e alegra gerações

Crédito: Alexandre Bastos / G1

Sou um metaleiro tardio. Desde moleque sempre curti Black Sabbath e Metallica, mas nunca me aprofundei muito no estilo. Até escutar e gostar bastante de The Book of Souls, recente álbum do Iron Maiden. Aí resolvi escutar tudo e me surpreendi com a qualidade dos trabalhos, principalmente na década de 80. Grandes álbuns.

Mea culpa feita, vamos aos fatos. Não me incomodo do grupo fazer uma turnê do último álbum e tocar algumas faixas dele (foram cinco, acho), ainda mais sendo um trabalho legal. Acho que tem que ser assim e não apenas ficar revivendo o passado. Mas sim, me incomoda a banda abrir mão de alguns hits, como Run to the Hills e Can I Play with Madness?. Fizeram muita falta. Poderiam esticar um pouco o setlist de 15 músicas.

O ginásio Nilson Nelson estava lotado. Um calor absurdo, chegando ao ponto de ficar desagradável. Uma sauna. A acústica, como já era de se esperar, era lamentável. Fiquei na pista, perto da mesa de som e ali estava menos ruim. O Iron Maiden merecia um local melhor. E o público também. A única vantagem é que, ao contrário do Mineirinho, o ginásio não é tão grande, então de qualquer lugar, da pista ou arquibancada, o palco está próximo.

Vários ambulantes vendendo pipoca, hot dog e churros. E não vendiam nada. Já para comprar cerveja, sempre uma fila de uns 10 minutos. E alguns lugares aceitavam as fichas e pasmem, em outros não, precisava usar dinheiro. Então, para que raios existem as tais fichas?

Atenção produtora: creio que não deve ser o primeiro show de metal que vocês fazem, então vou explicar o óbvio: roqueiro/metaleiro vai no show pra beber. BEBER. Ele come? Sim. Na saída do show, um sanduíche, churrasquinho ou hot dog no primeiro podrão suspeito que ele encontrar. Em alguns lugares faltou cerveja e quando o estoque era reposto, ela estava quente. Beber uma latinha de Budweiser QUENTE que custava 10 reais dói na alma. E no bolso.

Apesar dos pesares, foi um ótimo show. Bruce Dickinson conseguia alcançar as notas mais altas, mas não conseguia sustentá-las, mas considerando a idade e o fato de que ele venceu recentemente um câncer na boca, estamos todos no lucro.

E pela primeira vez, não comprei uma camiseta, como faço em todos os shows. R$ 120 ficou bem acima de um valor razoável para um fã. Mas apesar dos pesares, o saldo é positivo.

E sobre o Anthrax, o show foi muito curto (30 minutos, mais ou menos), mas eu gostei bastante. E também gostei do comportamento do público, mais preocupado em curtir o show do que nas selfies. E muitas famílias, fazendo o metal passar adiante por gerações. O metaleiro é fiel.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Ao David

Créditos: nafuma.com.br / Reprodução

Demorei a escrever, esperei a ficha cair. Não cai. A morte do David, mesmo assimilada, ainda é de difícil aceitação. Sim, do David. Me senti como se tivesse perdido alguém da família, um amigo próximo.

Isso nunca me ocorreu. Nunca fui um fã apaixonado, apesar de sempre acompanhar sua carreira com atenção e gostar de muita coisa em sua discografia, principalmente a década de 70 e início de 80, que são absurdamente bons. Mas a morte dele bateu. Doeu. Dói.

Talvez por tudo o que ele representa não só na música, mas como artista. Da gama absurda de gente que ele influenciou, das mais variadas vertentes e raízes musicais. Das pessoas que percebi que estavam de fato sofrendo, chocadas, pois a arte que ele fez encurtava distâncias, driblava culturas e fazia significado para qualquer um de nós.

Da sua carreira em si, sempre surpreendente, sempre tentando algo novo e diferente, mesmo errando. Um incomodado, um desbravador, um monstro, que deixou canções e mais canções na história.

A sua despedida foi premeditada. Terminar um álbum com seis paradas cardíacas no período é um sintoma óbvio de que aquele era seu último tiro. Seu último suspiro. Felizmente, ele o completou e deixou dois videoclipes lindos, repletos de mensagens a respeito da sua morte (já tentei fazer uma análise semiótica, é coisa que dá trabalho e que até me falta conhecimento).

Nada ali é por acaso e ele deixou sua mensagem, se despediu sem alarde e deixou que o rebuliço ficasse por nossa conta. A incredulidade, a tristeza e a emoção de uma despedida tão significativa, encerrando uma carreira tão bonita, com seus altos e baixos, mas sempre apontando adiante, à frente do seu tempo, influenciando a música, a moda, o cinema, o comportamento e tudo o mais que fosse possível.

Jamais haverá outro David como o Bowie. O talento dele era do nível dos maiores que por aqui já estiveram e estão. A música vai perdendo a graça, a cor. É passar o legado dele adiante, para que mesmo morto ele continua vivo para nós.

Este clipe é incrível, repleto de referências da sua morte, que estava próxima. O álbum inteiro, desde o nome, até sua arte, foi brilhantemente pensando a este respeito. Até no crepúsculo da vida, David Bowie foi genial e decidiu sê-lo após partir da Terra. Só temos que aplaudir e reverenciar.


terça-feira, 27 de outubro de 2015

20 anos de um disco absolutamente indescritível

Créditos: npr.org / reprodução

Um chute na porta, um soco na cara, uma cabeçada no peito. Uma força até hoje pouco compreendida faz de Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995) a essência de uma geração, o retrato de um grupo em seu auge, que se perdeu em influências tão díspares e obteve uma sensibilidade ímpar em canalizá-los, sem tirar o pé do acelerador. Rocks contundentes, baladas de cortar os pulsos e tem ainda orquestração, música instrumental, muita distorção, eletrônica, violões, uma miscelânia indescritível que até hoje emociona, faz rir, chorar. Não há um porquê.

Eu era moleque. Foi o primeiro álbum que conheci deles. Paguei R$ 23,90, um preço absurdo para a época (na Acústica CD's Shop, loja que ainda existe na Savassi, em BH). Clipes rolando aos montes na MTV, um melhor que o outro, músicas absolutamente distintas, mas todas eram (e ainda são) absurdamente belas: Bullet With Butterfly Wings, Tonight, Tonight, 1979, Zero, Thirty-Three. Cinco singles majestosos. Lembro que escrevi uma resenha na época (não lembro se foi pra jornal, revista, blog, era ali em meados de 2000, creio) e cravei que das 28 músicas, "20 eram excepcionais". E escutando agora, 20 anos e 3 dias depois, percebo o quanto esse álbum continua necessário e envelheceu bem.

Na época em que as festas durante as tardes eram vazias, ao mesmo tempo em que me empolgava cada vez mais com o britpop e o grunge, veio este cd que sepultou o (bom) trabalho que faziam até então. Pegaram essa crueza dos dois primeiros trabalhos e colocaram mais peso, mais barulho. Ao mesmo tempo, retiraram boa parte do peso que lá havia. Acrescentaram pitadas de rock progressivo, heavy metal, folk e New Order. Estava fadado para a incompreensão. Mas vendeu mais de 20 milhões de cópias na época e jogou o grupo em outro patamar, de onde ele lutou para se situar nos anos seguintes, mas acabou sendo implodido de dentro pra fora. Hoje, Billy Corgan cansou de juntar os cacos e curte mais quebrar vidraças. Bola pra frente.

Destrói a mente, destrói o corpo, mas jamais destrói o coração. Em um imenso poço de "melancolia e infinita tristeza" ainda havia uma luz, havia algo bom, que se contrastava com o clima sombrio. Esse emaranhado de sentimentos se dividia entre canções formidáveis, calmas e doces que faziam ninar até um tiranossauro como Galapogos, In the Arms of Sleep, To Forgive, By Starlight, Lily e We Only Come Out at Night. O oposto, beirando o caos, na qual pregava que "amar é o suicídio" (Bodies) e (ainda) mais barulho era necessário nas ótimas Fuck You, X.Y.U., Where Boys Fear to Tread, Jellybelly e também nas quase obscuras e praticamente perfeitas Here is No Why e Muzzle. Além de duas músicas que são tão belas que chegam a doer, para ouvir sem pressa: Porcelina of Vast Oceans e Thru the Eyes of Ruby.

Um momento único para o grupo e para mim. O estrago foi feito. Eles nunca mais foram os mesmos. Nem eu. Ele mudou completamente a minha vida, está no meu top 10. Escrevi essas linhas todas, mas ele segue sendo indescritível. Desculpem pelo tempo que tomei de vocês.

Sofra do meu desejo: