quarta-feira, 22 de julho de 2015

Wilco e sua síndrome do freio de mão puxado

Créditos: rockcabeca.com / Reprodução


Outro texto estava pronto. Era sobre Star Wars, nono disco do Wilco. Tecia duras críticas, mas também ressaltava que nem tudo estava perdido. Não sei o porquê, mas o Blogger perdeu o rascunho. Fiz um relato bonito, até. Cheio de floreios, alusões, naqueles breves momentos de inspiração que um mísero backup restabelecia meu ânimo.

Leia também (outros textos meus)

Tudo pelo ralo. Recomeço do zero. Escrevo movido pelo sentimento das músicas que ouço, no ritmo que me convém. E esse trabalho me motiva até a reescrever sobre ele, pois desde que perdi o texto, minha percepção sobre essas 11 faixas acabou mudando um pouco, ficando menos pessimistas. Mas não há motivo para festa. Este disco não está nem no céu, nem no inferno, mas a paciência no purgatório está no fim.

Fazendo uma breve recapitulação, a banda apresenta duas (ou melhor, três) fases distintas. A primeira, até 2002, na qual Jeff Tweedy recebe valiosa contribuição de Jay Bennett na construção das músicas. É a fase "Wilcão de raiz", com country, rock e folk, onde o protagonismo melódico é do violão. Os quatro primeiros discos são da época e são consenso entre todos os fãs, que são soberbos, irretocáveis: AM (1995), Being There (1996), Summerteeh (1999) e Yankee Hotel Foxtroit (2002).

Bennett saiu do grupo (e infelizmente faleceu 7 anos depois) e entraram Neils Cline (guitarra), Pat Sansone (teclado e guitarra) e o baterista foi substituído (Ken Croomer por Gleen Kotche). A banda mudou muito. É a segunda fase, com os mesmos integrantes há mais de uma década. A banda ficou mais roqueira, mesmo sem perder as raízes.

Nesse momento, o Wilco lançou meus dois trabalhos prediletos: o exemplar A Ghost is Born (2004) e o maravilhoso Sky Blue Sky (2007). Mas dali em diante, a maionese desandou. É a fase atual, na qual a banda lança trabalhos que não são ruins, mas que parecem pálidos, erráticos, que definham perto da grandeza do que até então produziram.

Wilco (The Album), lançado em 2008, para alguns foi o "primeiro disco ruim da banda". Não acho, um trabalho nota 6. Mas está abaixo dos demais, sem dúvidas. Aí veio The Whole Love (2011) que eu gosto (bastante, até), apesar de sofrer da síndrome do "coito interrompido": em várias músicas, quando o ápice parece chegar, a canção termina (não sei se culpa da banda, produtor ou de ambos). Podia ser um álbum nota 8,5 mas só alcança um 7.

Aí temos, enfim, Star Wars. Diferente do anterior, apenas se assemelha na minha decepção em alguns momentos, por interromper as músicas antes das melhores partes que poderiam vir. Fora isso, alguns tem belos momentos. Magnetized é linda, claramente influenciada por John Lennon. O início do cd também é bem bom, com a dobradinha More... e Random Name Generator (que baixo sensacional).

Taste the Ceiling é a típica canção fofa do grupo, na qual se gosta na primeira audição. Já no restante do álbum, o esforço para gostar é maior e muitas vezes, em vão. A banda às vezes se mostra acomodada, sem muita ousadia e pisando em territórios sonoros já explorados por ela mesma. Em outros, parece preguiçosa mesmo, até mesmo You Satellite, que é bem interessante, poderia ir muito além, como fizeram com maestria no A Ghost is Born ou até mesmo no The Whole Love. Parece um carro que anda com o freio de mão puxado.

Quando olhamos para o retrovisor, o que mais nos chama a atenção é o que está mais próximo de nós. No caso do Wilco, são Star Wars, The Whole Love e Wilco (The Album), nesta ordem. Sinceramente, não dá para equipará-los com o restante da discografia.

Não chego ao ponto de cravar uma 'decadência' do grupo, mas essa fórmula de ganhar um jogo por 1 a 0 jogando na retranca não me convence. Star Wars, se compararmos com outras bandas (com mais de 20 anos de estrada) que lançaram discos ruins não é um tropeço notável (como Around the Sun, do R.E.M.), nem é um álbum que já nasceu morto (como The King of Limbs, do Radiohead). Há vida, mas no "nosso 7x1 de cada dia", após duas bolas na trave, está para vir um gol contra. Está na hora da reação.

Ouça Magnetized, do Wilco:


segunda-feira, 18 de maio de 2015

Blur de volta. E bem.

Créditos: emptylighthouse.com/ Reprodução

Pois é, 2015. Não dá pra esperar aquela alegria juvenil dos primeiros álbuns, o apogeu festivo de Parklife, a tremenda sacada (e flerte com a América) no lindão Blur (famoso álbum de capa amarela, quando a capa de cds ainda eram relevantes), ou quando chutavam o balde em um álbum excelente, experimental e triste (13), apesar de os singles do mesmo discordarem.

A mesma formação gravou um novo trabalho, após 16 anos (sim, tivemos o bom Think Tank, mas nele Graham Coxon participou de uma mísera música e saiu da banda). Desde então, Damon Albarn embarcou em alguns projetos (todos acima da média, bom ressaltar), Coxon gravou álbuns (irregulares, mas com muita música boa), Alex James foi cuidar da fazenda e Dave Rowntree até tocou como DJ em Brasília.

O que esperar do novo trabalho, The Magic Whip? Um pouco disso tudo (Blur alegre, experimental, Gorillaz, acústico), mas com o peso da idade. E após algumas audições, de fato tudo está ali. Menos o peso da idade, que está presente apenas na barriguinha dos integrantes do quarteto. O álbum, se mostra jovial, não da forma como Leisure (lá de 1991, o debut), mas se apresenta leve e disposto, mesmo sendo tão diverso (o que não chega a ser surpresa se tratando de Blur).

Os anos 90 estão vivos em músicas como Lonesome Street. Go Out é alegre, pop, pegajosa e tem aquela guitarra maravilhosamente suja de Coxon. As boas Ice Cream Man e Pyongyang caberiam facilmente no 13. O Blur sempre tem uma música mais agitada/guitarreira (lembram de Crazy Beat, Chinese Bombs, B.L.U.R.E.M.I.,  Bank Holiday?), a deste disco é I Broadcast.

Baladas sempre fizeram parte e aqui estão muito bem representadas:  My Terracotta Heart, New World Towers Thought I Was a Spaceman. A linda Ghost Ship podia ser Gorillaz (apesar da guitarra de Coxon ser bem peculiar). Ong Ong é outra faixa mastigadinha, palatável, agradável, fácil de gostar para fãs antigos e novos.

Há uma teoria que desde o cd Parklife (1994), a ultima faixa de cada álbum é uma pista de como será o próximo ou de como será a banda. Nessa onda, Mirrorball prevê um futuro interessante, porém um pouco nebuloso.

Cada música é envolvida por diversas camadas sonoras compostas de sirenes, diálogos, toques de telefone, piano e outras esquizofrenias da banda, portanto escutá-lo com fones de ouvidos deixa The Magic Whip ainda mais interessante. Não esperem hinos como The UniversalTender ou Charmless Man. Mas ainda assim, são boas canções que deixam claro que o retorno do grupo valeu a pena.


Assista ao videoclipe de Go Out:

terça-feira, 28 de abril de 2015

Noel Gallagher canastrão, mas ainda competente

Reprodução / euescuto.com.br

Nesse momento que este texto e más traçadas linhas é divulgado, boatos (novamente) da volta do Oasis estão fortes. Enquanto isso, o cérebro da turma, Noel Gallagher lançou no início do ano seu segundo trabalho com os High Flying Birds,  Chasing Yesterday é o nome do álbum, mas na verdade pauta não só este trabalho, mas como toda a carreira do músico. Mesmo quando quer dar um passo adiante, Noel dá uma piscadela para o passado. Isso está claro em toda sua carreira (desde Oasis) e mais do que nunca neste álbum.

"Voando Alto", resenha do show de Noel Gallagher's High Flying Birds no RJ em 2012

Outro sintoma importante deste trabalho é de como Noel está cada vez mais focado nas composições, nas melodias e menos em seu ofício de guitarrista. Isso já ficou claro no primeiro trabalho, mas agora está ainda mais latente. Riverman é o baixo que se destaca, além do leve flerte de Wonderwall no início (e da letra, com o início de Something dos Beatles). Merece registro o sax bem canastrão, bem Sting ao final.

In the Heat of Moment é o chiclete que gruda e faz cantar, mesmo sem emocionar. The Girl wih X-Ray Eyes vale pelo baixo (de novo!). Lock All the Doors lembra Morning Glory (do... Oasis).

Os destaques são: The Dying of the Light com bela letra e melodia. Ponte e refrão do jeito que Gallagher ensinou em seus melhores momentos. Boa surpresa também é The Right Stuff e seu estilão meio jazz (canastrão, algo que Noel não curtia). Solo de guitarra no fim, mas perceba: é pouco perceptível. E o sax, novamente presente.

É um trabalho melódico, na maior parte calmo, com alguns lampejos do que Noel Gallagher sabe fazer de melhor. Não é um trabalho ruim, mas é nítido que ele pode ir além. Se é um esgotamento e por isso o Oasis pode em breve se reagrupar, só o tempo irá dizer.

Mas fica um gostinho de que podia ser melhor, apesar de seus bons momentos. Impossível impedir de Noel de perseguir o passado. Só precisa de um pouco mais de afinco.

Assista ao videoclipe de Ballad of Might I de Noel Gallagher's High Flying Birds:



sábado, 28 de março de 2015

Smashing Pumpkins em 2015: um show conveniente

Brian Rasic / REX


Há alguns dias tive uma ótima discussão com amigos no Facebook após postar o vídeo do show do Smashing Pumpkins no Chile. E ontem pude conferir ao vivo a apresentação da banda, em Brasília.

O show ocorreu no Net Live Brasília, que recebeu cerca de 3 mil pessoas (no meu olhômetro), ou 50 mil de acordo com a PM, metade de sua capacidade. O som no local estava apenas razoável, mas de acordo com relatos, "melhorou muito" em relação aos outros shows no mesmo local. A fama de "sauna" não se justificou, lá dentro estava um clima agradável (também favorecido uma noite fresca, com temperatura em torno dos 18 graus na hora do show).

Sobre a banda, serei econômico. É um grupo que marcou os anos 90, com um álbum simplesmente extraordinário (Mellon Collie and the Infinite Sadness, de 1995) e os demais "apenas" muito bons até 2000, quando a banda acabou.

Aí concordo com o Mauricio Angelo quando afirma que desde então, ninguém freou a megalomania do Billy Corgan. Com isso, aparecem trabalhos até aceitáveis como o Oceania (2012) com outros que deixam bastante a desejar, como o Zeitgeist (2007).

Assista a banda tocando 1979 em Brasília:



Pois bem, a pergunta que vocês me fazem. Se vale a pena ver o show? Sim, vale. A banda apresenta alguns hits de forma apenas correta, mas que sacia de certa forma a saudade dos fãs. A formação é enxuta e os demais músicos são discretos, meros coadjuvantes. Cerca de metade do setlist são de canções pós-2000. Aí entra a conveniência: você pode ir pra fila da cerveja sem pressa (até porque o atendimento no Net Live deixou a desejar) e se abastecer. Passei uma parte do show ali na fila, acompanhando as músicas novas, que até não são ruins, mas é uma safra bem inferior que a dos anos 90.

Se você parar pra pensar que pagou ingresso pra ver apenas 8 músicas muito boas, você pode até questionar. Mas quando escuta 1979, Bullet With Butterfly Wings, Ava Adore, Cherub Rock, Stand Inside Your Love, Today, Disarm e Tonight, Tonight, percebe que valeu a pena.

Sim, quase imperdoável não tocar The Everlasting Gaze, Zero, Perfect ou até mesmo alguma outra balada como Thirty-Three. Mas Billy Corgan cria e segue suas regras, para o seu próprio mundo. Cada show é uma surpresa. Há 5 anos, no Festival Planeta Terra, ela foi negativa. Agora, com baixas expectativas, o show foi aceitável, conveniente.

Mas não olhe no retrovisor, é uma covardia comparar este grupo com o de 20 anos atrás, como é também nos compararmos com nós mesmos, em 1995. Era outra banda e nós, outras pessoas.

p.s.: não perdi meu tempo assistindo o Young the Giant, valeu mais a pena beber cerveja na porta.







sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Melhores de 2014


Créditos: cifras.com.br

Desde 2002 já é tradição. Chega janeiro e faço o meu manjado ranking com o que de melhor eu escutei no ano anterior. E a foto do post, sempre é do primeiro colocado que fica fora do Top 20. Pois é, o Maroon 5 abocanhou a 21ª posição com o popzão V.

Em 2014 foi o ano em que estive fora da imprensa, portanto inevitavelmente o número de álbuns que escutei foi menor, cerca de 60, sem contar aqueles que ouvi uma vez e achei tão ruim, que deletei e nem contabilizei...

Sem mais delongas, vamos ao ranking...

20º lugar: Weezer - Everything Will Be Alright in the End




19º lugar: OFF! - Wasted Years




18º lugar: Santana - Corazon




17º lugar: Foster the People - Supermodel




16º lugar: The Kooks - Listen




15º lugar: AC/DC - Rock or Bust




14º Tom Petty & The Heartbrakers - Hypnotic Eye




13º Lily Allen - Sheezus




12º Blues Pills - Blues Pills

Link: https://www.youtube.com/watch?v=ML9ah9JR7M8  

11º Linkin Park - The Hunting Party




10º Pink Floyd - The Endless River

Belo registro para terminar dignamente uma carreira gloriosa.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=5rRyaiDoeoY 

9º Jack White - Lazaretto

O incansável White mantém sua média e lança mais um bom trabalho.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=qI-95cTMeLM&list=PL1mLWBwR-P2s76yM9J-K3X5_jhxkI0Cgs 

8º The War on Drugs - Lost in the Dream

O maior hype do ano não contagiou a ponto de chegar ao top 5, mas é inegável a qualidade deste álbum.



7º Damon Albarn - Everyday Robots

Albarn calmo, contemplativo, reflexivo e soberbo.



6º Beck - Morning Phase

Beck volta a soar calmo, acústico e faz (mais) um belo cd.



5º Mombojó - Alexandre

Ousados, experimentais, psicodélicos e malucos. Outro álbum difícil e bacana dos pernambucanos.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=BoYsVwKArSQ&list=PLFSvS2UvIClkguKERzYV_hbJ_A4m1qgOO

4º Bruce Springsteen - High Hopes

Um disco de sobras do Bruce chegar ao top 5 é um duplo alerta: primeiro, que ele tá sobrando; segundo, que o rock não anda nada bem.



3º Johnny Cash - Out Among the Stars

Disco inédito, tirando a poeira de uns 30 anos. E sensacional.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=BoQ5KI_ZNLU&list=PLXp0lHeE5CnqC1GShFKTPgibmDWkhRatf

2º Ryan Adams - Ryan Adams

Talvez ele seja a grande esperança do rock/folk/country/blues americano na atualidade. Esse nem é o melhor álbum dele, mas o cara é tão bom que chega ao pódio.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=H1TvsCMyL5A

1º Spoon - They Want My Soul

Sem palavras ao amigo Maurício Angelo, que me apresentou esta banda no ano passado. Trabalho irretocável da primeira até a última faixa.

Ouça na íntegra o álbum do Spoon:




Leia também:

Melhores de 2013

Melhores de 2012

Melhores de 2011

Melhores da década de 2000

Melhores de 2010

Melhores de 2007

Melhores de 2006

Melhores de 2005

Melhores de 2004

Melhores de 2003

Melhores de 2002

p.s.: não faço ideia onde postei meus rankings de 2008 e 2009... =/





sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

"Sonic Highways": um álbum menor do Foo Fighters


Créditos: foofightersbr.com / reprodução

Após muita pompa e expectativa, é inegável alguma decepção após escutar as 8 faixas de Sonic Highways, oitavo álbum de trabalho do Foo Fighters. O cd está umbilicalmente ligado ao documentário de mesmo nome e isso pode explicar bem o porquê do CD ter desapontado. Inclusive as letras das músicas, muitas delas são compostas por trechos das entrevistas do próprio filme.
Este processo de gravar cada música em uma cidade é interessante, mas funciona muito mais para o documentário (que é MUITO legal) do que para o álbum. Parece que o trabalho foi feito/finalizado às pressas, muitas músicas com uma audição mais atenta e paciente, talvez não chegariam na mixagem. 

Por exemplo, I Am the River é bonita, mas é cansativa, se prolonga demais, erro que já cometeram antes. Já Something from Nothing tem o mérito de inovar na estrutura (e o demérito de plagiar o riff de Holy Diver, do Dio), com o refrão só entrando aos 3'30'', mas é inferior a qualquer primeiro single que a banda já lançou, algo que sempre fizeram bem (Rope, The Pretender, Best of You, All My Life, Learn to Fly, Monkey Wrench e This is a Call). The Feast and the Famine também agrada pelo espírito punk. A que melhor desceu foi What Did I Do, God as My Witness, que se difere um pouco das demais.


Já as músicas Outside e In the Clear pouco acrescentam e Subterranean, aborrece. 
A impressão que fica é de um trabalho preguiçoso. Sem o mesmo ímpeto e energia do ótimo Wasting Light (2011) que está anos-luz à frente. Aliás, esta não é nem uma crítica a um trabalho hum, mais "contemplativo" do grupo, pois o subestimado Echoes, Silence, Paticience & Grace (2007) é digno de aplauso, ao menos neste espaço.
Participações especiais reforçam que o disco parece uma trilha sonora do documentário, até porque os próprios músicos convidados (muito bons, por sinal), tiveram tímidas presenças. Parece que estavam ali apenas para “fazer média” e ressaltar a participação em cada música, de um músico de alguma cidade, endossando a ideia do filme. Mas fazem pouquíssima diferença, uma pena. A impressão é de que a música ficou em segundo plano. Se o Dave Grohl achasse mais duas cidades pro documentário, o CD teria dez faixas. Parece que o álbum não foi o cerne do planejamento.
Na discografia da banda, este novo álbum só não é inferior ao One By One (2002). Mas este, possuía dois hits instantâneos (All My Life e Times Like These). Sonic Highways não possui nenhuma canção deste quilate. Algumas são interessantes, mas que não empolgam ou emocionam, como deveriam.
Sonic Highways não chega a ser ruim. Ele é apenas medíocre e só não estará fadado ao esquecimento, por causa do documentário, que é impressionante. O disco é o filho mais feio, que a gente tem o mesmo apreço, mas que chama menos a atenção que o bonito, o filme.

Assista ao videoclipe de Something from Nothing:


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Boyhood - o longo filme que acabou cedo demais

Reprodução / mrcsays.com


Se você se ausentou do burburinho, resumirei em poucas linhas: esse filme demorou 12 anos para ser feito, com o mesmo elenco. Retrata o crescimento de uma família, focado no garoto Mason, dos 6 aos 18 anos de idade. Só isso, já faria o filme ser imperdível, pois ele já é lançado sendo um vencedor, ultrapassando incertezas do mercado, de financiamentos e até mesmo de o elenco e o roteiro continuaram em pé. E estão lá.

Para um filme que demorou esse tempo, filmando 3 ou 4 dias por ano, ele ter 2 horas e 45 minutos de duração é muito pouco. É claro que é um filme um pouco longo para os padrões de Hollywood, mas quando você o assiste, percebe-se que é pouco. Esse filme tinha que ser um seriado com no mínimo 12 temporadas, ele te arrebata fácil.

Só as referências pop já valem assistir Boyhood (2014), em cartaz nos cinemas (com distribuição ainda pequena). A trilha sonora é matadora e segue o cronograma. Começa ali com Coldplay (do primeiro álbum) e Hives (hit antigão). E tem WilcoPaul McCartney, Bob Dylan, Arcade Fire, Flaming Lips, Vampire Weekend, dentre várias outras pérolas. A cena do pai criar o "Black Album" dos Beatles pode parecer boba (com uma coletânea dos trabalhos solo após o fim do "Fab Four"), mas funciona. A cena no cinturão bíblico, no qual Mason é apresentado para a Bíblia e para as armas é impagável, mas os spoilers param por aqui. É real, é um retrato do país e de muitas famílias.

O grande mérito é você perceber que o trabalho começou a ser filmado em 2003, então um retrato da política (campanhas do Obama), a tecnologia, a moda e os hábitos daquela época. Você se enxerga. O primeiro iPod, a troca dos celulares analógicos pelos smartphones, das TVs de tubo pelas atuais... Ao mesmo tempo algumas coisas não mudam: as mentiras, as desculpas para ir para uma festa e chegar mais tarde, o truque do chiclete após fumar, o embaraço em ser adolescente e ter que ouvir sobre sexo. O filme é delicioso, porque pais, mães e filhos se retratam a todo momento. É atemporal.

São problemas reais que acompanham a família, da mesma forma que nos acompanham. O cinema tem o mérito de criar um mundo à parte no qual somos inseridos e nosso deleite é estar fora da nossa rotina por cerca de 2 horas. Boyhood é exatamente o oposto: é resgatar tudo o que vivemos: os dramas, as brigas, os vícios, as alegrias de uma família como qualquer outra, que guarda grande semelhanças com qualquer família de classe média mundo afora.

Sei lá se vai ganhar o Oscar, pois não é um filme tecnicamente irretocável e não ostenta orçamentos majestosos, nem mesmo para caprichar no lobby para angariar votos. Mas é um filme que emociona, que assim que acaba, você lamenta por chegar ao fim.

Pode não ser o melhor filme do ano, mas é uma obra que dificilmente você vai esquecer. Um pequeno clássico de 165 minutos.

Assista ao trailer: