terça-feira, 15 de julho de 2014

A expectativa quase joga água no chope do Transmissor

Reprodução / miojoindie.com.br

Nos últimos 10 anos, a cena independente é assaltada por grandes nomes como o Violins de Goiânia, o Jair Naves de São Paulo, o Apanhador Só do Rio Grande do Sul e os mineiros do Transmissor.

O (talvez único) problema desta simpática e elogiada banda de BH são exatamente os gracejos, o feedback. Após os aclamadíssimos Sociedade do Crivo Mútuo (2009) e Nacional (2011) tenho a petulância de afirmar que o recente trabalho, De Lá Não Ando Só não supera os anteriores. Mas isso não é pouco, pois também não fica abaixo: corre sério risco de figurar entre os melhores de 2014. Culpa deles.

Não, a culpa não é deles. É nossa, da expectativa. Esta merda, esta desgraça que alimentamos sem até nos darmos conta. É inevitável, é um mal (des) necessário após dois álbuns tão bons. O novo trabalho passeia agradável, linear, com aquele rock climático, que não assusta ouvidos incautos e causa deleite nos já iniciados. Outro belo disco, lindo.

Assim que escutamos as primeiras faixas, a sensação é clara em praguejar contra o mercado, tudo e todos: por que uma banda como o Transmissor, com todos os predicados para estourar país fora, continua nos nichos? Infelizmente sabemos a resposta e torcemos por uma mudança na maré, que até agora não aponta, mas seguimos com fé.

Há lirismo, profundidade, essência e principalmente coesão, desde a 1ª faixa Queima o Sol até a belíssima Casa Branca, que encerra o trabalho e remete à aprazível região entre Nova Lima e Brumadinho, ali na Grande Belo Horizonte.

São três grandes álbuns, relativamente no mesmo nível, sobrevivendo a troca de integrantes, trabalhos paralelos e a ingrata safra do rock nacional, que é vistosa no underground, mas que ainda não chega a brotar no mainstream. Em Minas Gerais, o alfabeto da boa música começa no T e depois se reinicia. Portanto, escute-os. Pois a safra está para vingar. A qualquer momento.

Pode-se baixar ou escutar o álbum no site deles http://transmissor.tv

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Neil Young pisa no freio autoral e decepciona


Esqueçam A Letter Home, 35º álbum de Neil Young. Por que? Pois ele ainda permanece lançando álbuns de inéditas sensacionais (o Psychedelic Pill de 2012 é  prova disso) e aqui ele caiu no canto da sereia do Jack White pra fazer um disco de covers, lo-fi. E ficou chato.

Jack White é louvável, um baita músico que o chamou no projeto, colaborou e o lançou. Mas essa ideia em soar "descolado", como se estivesse gravando em uma fita k-7 ou mesmo vinil é patética, por mais que os "puristas" aplaudem, pois não dá pra ouvir claramente as canções e pouco consegue acrescentar ao que já eram.

Ao final, soa como um bootleg. Regravando de forma tosca Dylan, Willie Nelson, Springsteeen e outros nomes clássicos da música americana, A Letter Home soa como uma homenagem de catálogo de alguém que precisava regravar seus ídolos/amigos e os fez por obrigação. Uma pena.

É despojado, é tosco, porém é verdadeiro. Recomendo apenas aos devotos fãs de Neil Young. Ninguém mais. Mas o canadense possui um saldo gigantesco, tá mais do que perdoado.



quarta-feira, 28 de maio de 2014

Coldplay pisa no freio e não esboça pressa em arrancar


É engraçada a marcação de muitas pessoas (não só da crítica) com o Coldplay. No início, reclamam que era arrastado e chorão. Depois, que ficou pop demais. Agora, certamente vão arrumar defeito em Ghost Stories, sexto álbum que chega hoje nas lojas.

E o Chris Martin dá motivos para reclamarem, mas calma, chegaremos lá.

Primeiro, uma certa defesa contra os críticos (não total). Parachutes, lá de 2000, é um álbum enxuto, certinho, com pérolas que retratam uma banda iniciante, que adora(va) Travis e queria ser alguém ali no cenário do pós-britpop, nada muito além.

Com a A Rush of Blood to the Head, as vendas dobraram mundo afora e os horizontes musicais do grupo se expandiram, mesmo sendo um álbum que brilhou mais pelos singles do que pelo conjunto.

Em X & Y veio a derrapada em virtude de uma produção exagerada com teclados e sintetizadores em excesso, acima de tudo e todos, como um "sintoma de Phil Spector em The Long and Winding Road dos Beatles". Fix You sempre será uma das mais belas músicas daquela década, o álbum tem seus méritos, mas no geral, não convence muito.

Aí mudam completamente a direção: o céu se abre, o sol aparece, luzes e muitas cores. O carnaval sonoro da banda entra na avenida, expandindo seus horizontes: Viva La Vida e Mylo Xyloto venderam muito, mas aquém dos anteriores (10 milhões e 8 milhões respectivamente, sendo que X & Y e  o A Rush... venderam 15 milhões cada). Não sei se a derrocada da indústria motivou, mas ao menos aqui no Brasil, o público cresceu nestes dos últimos trabalhos, mais plurais. E com hits magníficos e flertando descaradamente com o pop (principalmente no último trabalho).

O Coldplay ainda soava introspectivo em alguns momentos, mas escancarava sua música para um público maior. E agora pisaram no freio. Ghost Stories é fechado, com alguns breves acenos mais populares. Algumas vezes o álbum soa "lounge", mas reflete um momento de ruptura, talvez pelo fim do relacionamento do vocalista, que norteia o conceito do disco.

Rupturas amorosas geralmente se refletem na arte produzida. No caso do Coldplay, foi uma ruptura e tanto: eles voltaram a soar mais melancólicos e introspectivos, mas sem a mesma verve dos primeiros anos. Grande chance de ser o álbum que menos vai vender deles. Mas aí surge a pergunta. É bom?

Sim, mas cai no rol dos famosos "álbuns de transição" dos críticos, que seria algo como a "virose" para os médicos. Deve-se aguardar para saber aonde o Coldplay vai parar, para fomentar melhor uma identificação. Se é que vai parar em algum lugar. Neste momento, percebe-se um álbum climático, com muitas nuances eletrônicas e pouca bateria e guitarra.

Magic é uma bela música, mas contrasta com os singles alegres de outrora. A única tentativa de soar de forma festiva está em A Sky Full of Stars, mas que soa estranha, como se fosse uma música calma que foi remixada por uma rádio "para a noite, para a balada", coisa que a própria banda já sofreu inúmeras vezes. Mas dessa vez eles mesmos produziram, de forma proposital. A última, O, esta sim, remete aos primórdios do Coldplay: se é uma arrancada em marcha à ré para suas fraldas ou apenas um momento turbulento de seu líder, o tempo irá nos dizer.

Nas demais, as canções soam comportadas: Always in My Head é quase um lounge. Midnight, esta sim, é um lounge.  True Love e Ink são belas e meramente contemplativas. Another's arms é quase um trip hop.

Ao final, o álbum pode soar chato para os mais apressados. De fato, não será um trabalho de referência do grupo, um ícone da sua discografia, mas mesmo assim merece uma audição atenta. Mas não, não entra no top 3 deles, mas vale a pena escutar, sem pressa, palavra que não está no vocabulário do grupo, que concebeu este rebento em quase 3 anos. Portanto, recomenda-se parcimônia.

Assista abaixo ao videoclipe de Magic:


segunda-feira, 19 de maio de 2014

O novo Titãs é velho, mas vale como uma goteira no semiárido

Faça um breve exercício. Pegue as bandas de rock nacional dos anos 80. Quais continuam produzindo, gravando algo com regularidade e qualidade? Pois é, nenhuma. Barão Vermelho, Kid Abelha, Engenheiros do Hawaii, Ira! seguem em hiato. Algumas fazem breves retorno$ e logo somem. Legião Urbana é história. O Ultraje a Rigor se destaca mais pelos tweets de política do seu vocalista. E os Paralamas, não produzem algo memorável há uns 15 anos. Talvez isso explique porque o rock nacional, que andava fatigado nos dials acabou sumindo completamente.

Mas enfim, é outro papo. O débito dos Titãs é maior. Lembro claramente deles lançando Domingo e se apresentando no Faustão. Foi o último suspiro de criatividade da banda (avaliação que cresceu motivada pelos horrores que lançariam posteriormente). Veio o (belo) acústico, que fomentou nos caça-níqueis posteriores, que vou poupá-los dos adjetivos negativos: Volume 2 e As Dez Mais. Após esse período, discos autorais insossos, com talvez um single que valha a pena aqui e outro acolá (como Epitáfio e Isso). É pouco, bem pouco.

Nheengatu, o novo álbum me deixa em uma encruzilhada. Ao mesmo tempo que aplaudo um direcionamento mas ríspido, rock e contundente do grupo, sua própria história depõe contra. Uma banda que sim, contestou, bateu de frente e mandou o mundo às favas em Titanomaquia ou Cabeça Dinossauro é a mesma que fez discos bem contraditórios nos últimos anos, abrindo mão de convicções, história e pensando na grana. É do direito deles? Claro! Mas aí, fica difícil colar esse discurso de "protesto" do novo trabalho, parece apenas um adesivo no "case" de guitarra. Uma ocasião, um momento. Ou um roqueiro de boutique, que vive confortavelmente em bairro de classe média e posa de revoltado.

Nem entro no mérito de "senhores de idade querendo soar jovens", pois o rock não envelhece no espírito. Acho absolutamente louvável e natural bandas após muitos anos ainda quererem e/ou tentarem resgatar o som de outrora, pois isso ainda contribui para perpetuar o rock, que está cada vez mais segmentado e desnutrido. Ainda ouço os novos discos dos "dinossauros" e acho que ainda podem contribuir com a música. Esse papo de que música/protesto/atitude é pros jovens talvez cole melhor nos ícones pop, pois ali realmente a imagem conta até mais que a própria música. Não no rock.

Então, ouvir um disco de rock dos Titãs, resgatando a acidez e o discurso (com letras meramente medíocres, mas comparando com o que se faz hoje no rock nacional, soa como poesia floreada) é legal.
Mas para mim é um mero entretenimento, não me convence, não caio nesta cilada.

Mas ó, prefiro eles tentarem revisitar o passado e soando repetitivos do que inovarem e fazer lixo. Ao menos, há vigor no álbum, E ótimas guitarras. Temas espinhosos, fúria e cinco músicas legais: Fardado, Mensageiro da Desgraça, Chegada ao Brasil, Não Pode e Quem São os Animais? (esta, a melhor). Para um fã antigo, não surpreende. Mas pode despertar o gosto pelo rock nacional nas novas gerações, tão castigadas com os Detonautas da vida. Neste sentido, este trabalho presta um grande favor. Quem sabe eles tocam no "Exquenta" da Globo? Melhor uma banda de rock fazendo uma releitura do que já fez do que a mesmice dominical, certo?

Enfim, é um disco que leva nota máxima no intuito, no pálido resgate do que já fizeram e na válida tentativa de "manter a chama do rock acesa" (termo horroroso, mas enfim). Mas ao final, por tudo isso que já escrevi nestas linhas, que você está de parabéns em suportá-las, leva nota positiva, mas sem aclamação. Passaram de ano e fizeram um álbum digno. E só.

Mas os clássicos ainda são (e creio que sempre serão) insuperáveis. Mas tomara que a grande mídia os aceite de volta, agora. Seria de grande utilidade para o rock nacional não morrer (sem mais clichês, por favor).

terça-feira, 1 de abril de 2014

John Frusciante faz contato com a Terra

Créditos: musictimes.com / Reprodução

Um ser absolutamente singular, que simplesmente distorce e ultrapassa os limites da música. Não há muito o que dizer sobre John Frusciante. Em poucas palavras, ele é louco. Sim, maluco, mas que muitas vezes usa isso em benefício próprio e em malefício também. Exemplos não faltam.

Um cara que ressurgiu das profundezas da década de 90, após um longo e sério abuso de várias drogas (ao ponto de descaracterizar seu braço, repleto de abscessos). O mesmo braço, que empunhou a guitarra do Red Hot Chili Peppers em cinco álbuns, sendo três deles absolutamente históricos (Blood Sugar Sex Magik e mais dois - ou três - que você escolhe).

A sua carreira solo começou em 1994 e entre álbuns que ele lançou pra sustentar o vício (Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt e Smile from the Streets You Hold) e outros simplesmente ótimos (como os três que lançou em 2004 - Shadows Collide With People, The Will to Death e Inside of Emptiness), ele sempre quis surpreender, provavelmente sem nenhuma intenção.

A bússola de Frusciante é o ar que respira, é o vento que sopra, nos ares de uma nítida sobriedade, como prova sua intensa produtividade. Após lançar um álbum e EP com forte influência hip hop e música eletrônica (PBX Funicular Intaglio Zone e Letut-Lefr, de 2012) e um EP absolutamente insano, psicodélico e indescritível (Outsides, de 2013), a única coisa que você espera ao ouvir um álbum dele é a surpresa. Pode vir de tudo: ruídos estranhos, viagens de efeitos sem nexo e fim, ou até singelas e maravilhosas canções pop, orientadas por voz e violão. Ele é imprevisível e usa deste artíficio como bem entende, sem ligar para crítica, mercado e fãs. Faz o que dá na telha.

E na telha do recém-lançado Enclosure (11º álbum, além de 6 EPs e inúmeros álbuns de parcerias) é um trabalho com muitas passagens de drum'n'bass. Mas do jeito do Frusciante ("Crowded" é um bom exemplo). E alguns trechos mais melódicas e sutis (mas ainda bem distante dos Chili Peppers), como "Stage" e (talvez) "Sleep", algo que ele não fazia há algum tempo. Colide com "Fanfare", mais uma de suas músicas incompreensíveis (ao menos se ouvinte estiver sóbrio). "Cinch" é outra loucura, contrastando com "Zone", mais palatável.

Perto dos seus últimos lançamentos, este CD é um passo em direção a algo mais convencional. Mas ainda um passo de astronauta, com toda a lentidão da gravidade zero. O caminho até a Terra ainda é longo e incerto. Enquanto isso, ele passeia pelo espaço, inclusive sendo lá mesmo onde este álbum acabou sendo lançado. Sintomático.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Stephen Malkmus, uma pérola e uma mera frase de efeito

Créditos: 505indie.com.br / Reprodução

Sério, não há muito o que dizer sobre Wig Out at Jagbags, novo rebento do Stephen Malkmus. Mais calmo e irresistível, o trabalho mantém as grandes melodias, as letras criatovas e a voz marcante. Típico trabalho clássico do "indie rock dos anos 90", mas sem o hype.
Em poucas palavras: a cada ótimo trabalho, ele se distancia da sombra da sua antiga banda Pavement (que era bem boa), com um trabalho solo (ok, com os Jicks) cada vez mais sólido e que já bate de frente com a sua ex-banda, se não ainda pela influência, mas pela quantidade de grandes canções.
Este novo álbum está cheio delas. Nem ouso destrinchá-las. Pare de ler e vá ouvir o melhor álbum de 2014 até agora (ok, o ano mal começou, mas a frase de efeito é irresistível).




domingo, 16 de fevereiro de 2014

As minúcias de Dylan

Créditos: Larousse / Divulgação

Em cerca de 700 páginas, No Direction Home é um prato cheio apenas para grandes fãs de Dylan. O livro de Robert Shelton (falecido em 1995) foi lançado na década de 80. Portanto, aí já começa um problema: o texto não aborda a polêmica fase de conversão religiosa do músico, na virada dos anos 70 para os 80, com suas turnês temáticas e álbuns contestados, assim como seu ressurgimento na década de 90, após escapar da morte. A narração vai até 1978, mais ou menos. Após isso, o livro faz um pequeno apanhado, que obviamente está longe de saciar a sede dos fãs.
O maior mérito e defeito do livro é a proximidade/cumplicidade do autor com Dylan. A obra é primorosa, até demais. Na primeira metade do livro, ele prolonga em diversas passagens, minúcias da criação do artista, da família, raízes, o que pode encantar um fã obcecado, mas ao mesmo tempo, torna a leitura cansativa. Na parte final, de 1964 a 1978, a obra esquenta, assim como a própria discografia de Dylan, compreendendo sua melhor fase e deixando a leitura bem mais interessante.
O foco está na relação do artista com sua época, em como ele revolucionou todos ao seu redor com sua música e poesia, em como ele foi atingido por isso e de que forma ele lidou nos anos posteriores.
A vida pessoal é pouco abordada, o foco do trabalho é em Dylan, como artista, músico e poeta.
É uma boa forma de compreender como o compositor mais influente da música popular do século XX enfrentou crises e cravou seu nome na história.
Mas sinceramente, em 400 páginas, tudo estaria perfeitamente descrito.