Muita boa música, críticas de shows e resenhas de álbuns de um jornalista que já deixou pitaco sobre o assunto em vários jornais, portais e blogs por aí. Agora, reúne tudo em um só lugar.
Até mês passado, não fazia a menor ideia que essa banda, que surgiu em 1993, existia. Sério. Se chama Spoon. Baixei o novo álbum, They Want My Soul, que é o oitavo (!!) trabalho deles. Peço desculpas públicas por ter ignorado os sete rebentos anteriores.
A justiça tarda mas não falha. Com flertes de Afghan Whigs e Primal Scream, o Spoon mistura um pop cheio de climas, sutilezas, teclados, com o bom rock, de riffs simples e cativantes. O resultado é uma música de grande qualidade, muitas vezes dançante, ora introspectiva, mas que sempre empolga.
Faz tempo que não ouço um álbum com tantos hits em potencial. E músicas de fato, boas. Não vou me alongar tanto, melhor do que ler estas mal resumidas linhas, é escutar essa preciosidade.
Se você gosta de indie rock, pop rock, rock inglês, se cresceu ouvindo boas melodias, refrão legal, aquela guitarra com timbres legais, piano e vocal marcantes, não perca mais o seu tempo. Eu já perdi demais e tento recuperar.
Não há muito o que dizer... Aí abaixo, o álbum inteiro para audição. Reserve alguns minutos e divirta-se.
Há pouco foi lançado Velocia, nono álbum de inéditas do Skank. O trabalho flerta um pouco mais com o reggae da fase noventista, mas ainda reflete uma banda indecisa, perdida e sem querer ousar tanto, que nos últimos dez anos lançou bons singles, porém álbuns bem irregulares. E Velocia não foge desta regra.
O trabalho apresenta algumas participações: Lia Paris, dispensável na chatíssima Aniversário; Nando Reis, parceiro de composições de longa data do grupo, que não compromete na faixa de abertura e na razoável Galápagos e B Negão, que deixa seu recado na bela Multidão.
No restante do trabalho, é uma montanha russa, como foram os anteriores Carrossel (2006) e Estandarte (2008), contrastes a cada faixa. Do Mesmo Jeito (parceria com Lucas Silveira, do Fresno) convence, empolga e tem cara de hit, já Rio Beautiful (com Emicida) é absolutamente descartável. Às vezes, as contradições estão dentro da mesma canção: Esquecimento começa linda, com bela letra e arranjos orquestrados e depois se perde. Já Alexia é sobre futebol e tem clara influência de Jorge Benjor, o que quer dizer: é a banda se sentindo em casa.
(Aliás, um parágrafo à parte: tenho uma birra pessoal sempre que algum artista tenta mesclar idiomas diferentes, me parece sempre uma vã tentativa de soar 'cool', quando na verdade revela em algumas vezes uma pobreza na construção da própria canção, em não conseguir encaixar alguma palavra na própria língua. Não sei quando esse trauma começou, acho que foi com os Tribalistas - aliás, quase todos os males da música brasileira eu faço referência a este nefasto projeto - , ou com a Marisa Monte - cantora que admiro e respeito (apesar d'os Tribalistas) - com aquela horrenda Amor I Love You. Então não me descem coisas como "Teu olhar é Rio Beautiful" ou mesmo "Manhã sem bonjour", admito que sou chato).
Périplo flerta com Supergrass e cai bem; A Noite faltam culhões, contundência, pra quem já compôs A Cerca e Rebelião, podia ter arriscado mais para sair do marasmo climático.
Quem diria, o disco é salvo pelo reggae: Tudo Isso (outra parceria com o rapper paulista), que encerra o trabalho, é deliciosa, simples e funcional. E Ela Me Deixou é a melhor, irresistível, mostrando que a verve jamaicana do grupo estava esquecida, mas permanece viva.
Fica o lamento de uma banda que possuía uma discografia irretocável até 2003, com os representativos e já clássicos Skank (1992), Calango (1994) e O Samba Poconé (1996), Siderado (1998), o corajoso e histórico Maquinarama (2000) e o maravilhoso Cosmotron (2003). Mas Velocia (2014) aponta para um resgate do que o grupo fez de melhor e este flerte se sobressai no trabalho. É a esperança de discos mais ensolarados daqui por diante. Vamos aguardar.
Desnecessário teorizar o quanto o rock é/foi importante para
a juventude. Quando eu era moleque, além dos clássicos, eu tive a sorte de ser
guiado por bandas relevantes que surgiam e/ou estouravam na época: Green Day,
Offspring, Blur, Oasis, Rage Against the Machine, Pearl Jam, Nirvana e por aí
vai.
20 anos depois, o rock simplesmente definhou e essa molecada
de 13, 14, 15 anos migrou para outros estilos musicais, relegando aos pais a
árdua tarefa de levar o bastão do rock adiante (que expressão horrível, mas
vocês entenderam).
Aí ouço o novo disco do Linkin Park e aplaudo por ser uma
tentativa de tentar (re)conquistar os moleques. É indiscutível que a banda não
é um RATM, um System of a Down, um Incubus, nem mesmo um Korn (que entrou em
parafuso por anos e parece que há pouco se reencontrou), e muito abaixo de um
Deftones (muito melhor e alternativo/confuso para essa geração). Seu novo trabalho The
Hunting Party é repleto de guitarras, sem aquelas climas chatos dos álbuns
anteriores. Mesmo com produção luxuosa, prima pela simplicidade.
E isso é o que dá pra fazer. Linkin Park é um dos ícones de
um gênero desnutrido, no qual tentam se reinventar ou simplesmente soarem
“honestos”, pois estão milionários e não precisam provar mais nada para
ninguém. A banda buscou a receita básica do rock, obviamente usando seus
próprios ingredientes. É um álbum com mais guitarras de toda a discografia (e
nem é pela presença dos guitarristas do Helmet, System of a Down e Rage Against
the Machine no trabalho).
Nunca curti Linkin Park, considerava uma banda
pré-fabricada, sustentada por auto tunes e pouco criativa. Aí veio o Minutes to
Midnight, de 2007. Ok, o mérito é mais do produtor Rick Rubin, que abriu a
trincheira para a banda soar interessante, flertando com o pop e fazendo
músicas pegajosas e sim, boas. Mas era uma banda bem diferente que se apresentava. Aí o grupo se intensificou nessas 'modernices' e se perdeu nos trabalhos
posteriores, fez um show chato no festival SWU (2010) e agora parece que acordaram.
O trabalho é direto, possui bons refrões, todos os
ingredientes para um público jovem e ávido, remetendo aos primeiros álbuns do grupo, com alguns flertes claros. O adolescente que adormece dentro
de mim acordou um pouquinho, deu uma espreguiçada, abriu um breve sorriso e
logo pegou no sono. Para os que mantém a juventude mais viva, vai cair bem. E
no estágio que o rock “jovem” se apresenta por estes dias, não está nada mal.
Para quem um dia já disse que o Linkin Park era uma boyband,
lembro que ultimamente até boybands estão lançando discos interessantes, como muitos reconheceram no (pasmem) One Direction. Então, nestes dias tão estranhos, o trabalho tem sim algum
mérito.
Nos últimos 10 anos, a cena independente é assaltada por grandes nomes como o Violins de Goiânia, o Jair Naves de São Paulo, o Apanhador Só do Rio Grande do Sul e os mineiros do Transmissor.
O (talvez único) problema desta simpática e elogiada banda de BH são exatamente os gracejos, o feedback. Após os aclamadíssimos Sociedade do Crivo Mútuo (2009) e Nacional (2011) tenho a petulância de afirmar que o recente trabalho, De Lá Não Ando Só não supera os anteriores. Mas isso não é pouco, pois também não fica abaixo: corre sério risco de figurar entre os melhores de 2014. Culpa deles.
Não, a culpa não é deles. É nossa, da expectativa. Esta merda, esta desgraça que alimentamos sem até nos darmos conta. É inevitável, é um mal (des) necessário após dois álbuns tão bons. O novo trabalho passeia agradável, linear, com aquele rock climático, que não assusta ouvidos incautos e causa deleite nos já iniciados. Outro belo disco, lindo.
Assim que escutamos as primeiras faixas, a sensação é clara em praguejar contra o mercado, tudo e todos: por que uma banda como o Transmissor, com todos os predicados para estourar país fora, continua nos nichos? Infelizmente sabemos a resposta e torcemos por uma mudança na maré, que até agora não aponta, mas seguimos com fé.
Há lirismo, profundidade, essência e principalmente coesão, desde a 1ª faixa Queima o Sol até a belíssima Casa Branca, que encerra o trabalho e remete à aprazível região entre Nova Lima e Brumadinho, ali na Grande Belo Horizonte.
São três grandes álbuns, relativamente no mesmo nível, sobrevivendo a troca de integrantes, trabalhos paralelos e a ingrata safra do rock nacional, que é vistosa no underground, mas que ainda não chega a brotar no mainstream. Em Minas Gerais, o alfabeto da boa música começa no T e depois se reinicia. Portanto, escute-os. Pois a safra está para vingar. A qualquer momento.
Esqueçam A Letter Home, 35º álbum de Neil Young. Por que? Pois ele ainda permanece lançando álbuns de inéditas sensacionais (o Psychedelic Pill de 2012 é prova disso) e aqui ele caiu no canto da sereia do Jack White pra fazer um disco de covers, lo-fi. E ficou chato.
Jack White é louvável, um baita músico que o chamou no projeto, colaborou e o lançou. Mas essa ideia em soar "descolado", como se estivesse gravando em uma fita k-7 ou mesmo vinil é patética, por mais que os "puristas" aplaudem, pois não dá pra ouvir claramente as canções e pouco consegue acrescentar ao que já eram.
Ao final, soa como um bootleg. Regravando de forma tosca Dylan, Willie Nelson, Springsteeen e outros nomes clássicos da música americana, A Letter Home soa como uma homenagem de catálogo de alguém que precisava regravar seus ídolos/amigos e os fez por obrigação. Uma pena.
É despojado, é tosco, porém é verdadeiro. Recomendo apenas aos devotos fãs de Neil Young. Ninguém mais. Mas o canadense possui um saldo gigantesco, tá mais do que perdoado.
É engraçada a marcação de muitas pessoas (não só da crítica) com o Coldplay. No início, reclamam que era arrastado e chorão. Depois, que ficou pop demais. Agora, certamente vão arrumar defeito em Ghost Stories, sexto álbum que chega hoje nas lojas.
E o Chris Martin dá motivos para reclamarem, mas calma, chegaremos lá.
Primeiro, uma certa defesa contra os críticos (não total). Parachutes, lá de 2000, é um álbum enxuto, certinho, com pérolas que retratam uma banda iniciante, que adora(va) Travis e queria ser alguém ali no cenário do pós-britpop, nada muito além.
Com a A Rush of Blood to the Head, as vendas dobraram mundo afora e os horizontes musicais do grupo se expandiram, mesmo sendo um álbum que brilhou mais pelos singles do que pelo conjunto.
Em X & Y veio a derrapada em virtude de uma produção exagerada com teclados e sintetizadores em excesso, acima de tudo e todos, como um "sintoma de Phil Spector em The Long and Winding Road dos Beatles". Fix You sempre será uma das mais belas músicas daquela década, o álbum tem seus méritos, mas no geral, não convence muito.
Aí mudam completamente a direção: o céu se abre, o sol aparece, luzes e muitas cores. O carnaval sonoro da banda entra na avenida, expandindo seus horizontes: Viva La Vida e Mylo Xyloto venderam muito, mas aquém dos anteriores (10 milhões e 8 milhões respectivamente, sendo que X & Y e o A Rush... venderam 15 milhões cada). Não sei se a derrocada da indústria motivou, mas ao menos aqui no Brasil, o público cresceu nestes dos últimos trabalhos, mais plurais. E com hits magníficos e flertando descaradamente com o pop (principalmente no último trabalho).
O Coldplay ainda soava introspectivo em alguns momentos, mas escancarava sua música para um público maior. E agora pisaram no freio. Ghost Stories é fechado, com alguns breves acenos mais populares. Algumas vezes o álbum soa "lounge", mas reflete um momento de ruptura, talvez pelo fim do relacionamento do vocalista, que norteia o conceito do disco.
Rupturas amorosas geralmente se refletem na arte produzida. No caso do Coldplay, foi uma ruptura e tanto: eles voltaram a soar mais melancólicos e introspectivos, mas sem a mesma verve dos primeiros anos. Grande chance de ser o álbum que menos vai vender deles. Mas aí surge a pergunta. É bom?
Sim, mas cai no rol dos famosos "álbuns de transição" dos críticos, que seria algo como a "virose" para os médicos. Deve-se aguardar para saber aonde o Coldplay vai parar, para fomentar melhor uma identificação. Se é que vai parar em algum lugar. Neste momento, percebe-se um álbum climático, com muitas nuances eletrônicas e pouca bateria e guitarra.
Magic é uma bela música, mas contrasta com os singles alegres de outrora. A única tentativa de soar de forma festiva está em A Sky Full of Stars, mas que soa estranha, como se fosse uma música calma que foi remixada por uma rádio "para a noite, para a balada", coisa que a própria banda já sofreu inúmeras vezes. Mas dessa vez eles mesmos produziram, de forma proposital. A última, O, esta sim, remete aos primórdios do Coldplay: se é uma arrancada em marcha à ré para suas fraldas ou apenas um momento turbulento de seu líder, o tempo irá nos dizer.
Nas demais, as canções soam comportadas: Always in My Head é quase um lounge. Midnight, esta sim, é um lounge. True Love e Ink são belas e meramente contemplativas. Another's arms é quase um trip hop.
Ao final, o álbum pode soar chato para os mais apressados. De fato, não será um trabalho de referência do grupo, um ícone da sua discografia, mas mesmo assim merece uma audição atenta. Mas não, não entra no top 3 deles, mas vale a pena escutar, sem pressa, palavra que não está no vocabulário do grupo, que concebeu este rebento em quase 3 anos. Portanto, recomenda-se parcimônia.
Faça um breve exercício. Pegue as bandas de rock nacional dos anos 80. Quais continuam produzindo, gravando algo com regularidade e qualidade? Pois é, nenhuma. Barão Vermelho, Kid Abelha, Engenheiros do Hawaii, Ira! seguem em hiato. Algumas fazem breves retorno$ e logo somem. Legião Urbana é história. O Ultraje a Rigor se destaca mais pelos tweets de política do seu vocalista. E os Paralamas, não produzem algo memorável há uns 15 anos. Talvez isso explique porque o rock nacional, que andava fatigado nos dials acabou sumindo completamente.
Mas enfim, é outro papo. O débito dos Titãs é maior. Lembro claramente deles lançando Domingo e se apresentando no Faustão. Foi o último suspiro de criatividade da banda (avaliação que cresceu motivada pelos horrores que lançariam posteriormente). Veio o (belo) acústico, que fomentou nos caça-níqueis posteriores, que vou poupá-los dos adjetivos negativos: Volume 2 e As Dez Mais. Após esse período, discos autorais insossos, com talvez um single que valha a pena aqui e outro acolá (como Epitáfio e Isso). É pouco, bem pouco.
Nheengatu, o novo álbum me deixa em uma encruzilhada. Ao mesmo tempo que aplaudo um direcionamento mas ríspido, rock e contundente do grupo, sua própria história depõe contra. Uma banda que sim, contestou, bateu de frente e mandou o mundo às favas em Titanomaquia ou Cabeça Dinossauro é a mesma que fez discos bem contraditórios nos últimos anos, abrindo mão de convicções, história e pensando na grana. É do direito deles? Claro! Mas aí, fica difícil colar esse discurso de "protesto" do novo trabalho, parece apenas um adesivo no "case" de guitarra. Uma ocasião, um momento. Ou um roqueiro de boutique, que vive confortavelmente em bairro de classe média e posa de revoltado.
Nem entro no mérito de "senhores de idade querendo soar jovens", pois o rock não envelhece no espírito. Acho absolutamente louvável e natural bandas após muitos anos ainda quererem e/ou tentarem resgatar o som de outrora, pois isso ainda contribui para perpetuar o rock, que está cada vez mais segmentado e desnutrido. Ainda ouço os novos discos dos "dinossauros" e acho que ainda podem contribuir com a música. Esse papo de que música/protesto/atitude é pros jovens talvez cole melhor nos ícones pop, pois ali realmente a imagem conta até mais que a própria música. Não no rock.
Então, ouvir um disco de rock dos Titãs, resgatando a acidez e o discurso (com letras meramente medíocres, mas comparando com o que se faz hoje no rock nacional, soa como poesia floreada) é legal.
Mas para mim é um mero entretenimento, não me convence, não caio nesta cilada.
Mas ó, prefiro eles tentarem revisitar o passado e soando repetitivos do que inovarem e fazer lixo. Ao menos, há vigor no álbum, E ótimas guitarras. Temas espinhosos, fúria e cinco músicas legais: Fardado, Mensageiro da Desgraça, Chegada ao Brasil, Não Pode e Quem São os Animais? (esta, a melhor). Para um fã antigo, não surpreende. Mas pode despertar o gosto pelo rock nacional nas novas gerações, tão castigadas com os Detonautas da vida. Neste sentido, este trabalho presta um grande favor. Quem sabe eles tocam no "Exquenta" da Globo? Melhor uma banda de rock fazendo uma releitura do que já fez do que a mesmice dominical, certo?
Enfim, é um disco que leva nota máxima no intuito, no pálido resgate do que já fizeram e na válida tentativa de "manter a chama do rock acesa" (termo horroroso, mas enfim). Mas ao final, por tudo isso que já escrevi nestas linhas, que você está de parabéns em suportá-las, leva nota positiva, mas sem aclamação. Passaram de ano e fizeram um álbum digno. E só.
Mas os clássicos ainda são (e creio que sempre serão) insuperáveis. Mas tomara que a grande mídia os aceite de volta, agora. Seria de grande utilidade para o rock nacional não morrer (sem mais clichês, por favor).